Por bferreira

Rio - Uma história: em novembro do ano passado, foram presas cinco pessoas que retiravam de um helicóptero, pousado numa fazenda do Espírito Santo, 445 quilos de cocaína pura. Acusadas de tráfico de drogas, elas eram: o piloto e o copiloto da aeronave, o dono da fazenda e mais dois outros homens que ajudavam no transporte.

A surpresa foi quando se viu quem era o dono do helicóptero: um filho do senador Zezé Perrela (PDT-MG), Gustavo, deputado estadual em Minas Gerais.

Os Perrela foram inocentados pelo Ministério Público, que afirmou não haver provas de que estariam envolvidos no caso, apesar de o combustível usado no helicóptero ter sido pago com verba indenizatória do gabinete de Gustavo e o piloto ser seu assessor na Assembleia Legislativa de Minas.
Os acusados já estão soltos.

Outra história: em junho de 2013, o morador de rua Rafael Braga Vieira foi preso numa manifestação contra o aumento das passagens de ônibus no Centro do Rio.
Rafael ganhava a vida catando latas. Quando terminou a passeata em que foi detido, houve um quebra-quebra promovido por mascarados, após o que a polícia fez prisões sem muito critério.

Juntamente com as latas de cerveja amassadas, das quais tirava seu sustento, Rafael tinha consigo recipientes com restos do desinfetante Pinho Sol e de água sanitária.

Por isso, no dia 2 de dezembro o juiz da 32ª Vara Criminal o condenou em primeira instância a cinco anos e dez meses de prisão em regime fechado, por “porte de artefato explosivo”. Serviu como agravante o fato de Rafael já ter sido condenado duas vezes por roubo.

O desinfetante encontrado com Rafael contém álcool em sua composição. Da mesma forma como muitos outros produtos vendidos em supermercados. Mas será que poderia ser apontado como um “artefato explosivo”?

Ao contrário dos demais detidos na passeata, que foram libertados quase de imediato, Rafael ficou preso preventivamente numa delegacia em Japeri desde 20 de junho até ser julgado e condenado, cinco meses e meio depois.

Diante dos dois exemplos, fica claro o uso de dois pesos e duas medidas do nosso Judiciário, dependendo da classe social dos acusados de crimes.

Wadih Damous é Presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos e da Comissão da Verdade do Rio

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