Por adriano.araujo

Rio - García Márquez, em ‘Doze contos peregrinos’, conta a história de um cachorro que, todos os domingos, era encontrado no Cemitério de Barcelona, junto ao túmulo de Maria dos Prazeres, uma ex-prostituta.

Com certeza se inspirou na história real de Bobby, um terrier de Edimburgo, Escócia, que por 14 anos guardou o túmulo do dono, enterrado em 1858. Pessoas comovidas com a sua fidelidade o alimentavam. O animal foi sepultado ao lado e, hoje, há ali pequena escultura dele e uma lápide, na qual gravaram: “Que a sua lealdade e devoção sejam uma lição para todos nós.”

Em Tóquio, ergueram também uma estátua, na Estação Shibuya, em homenagem a Hachiko, cão da raça akita que todo dia ali aguardava seu dono retornar do trabalho. O homem morreu em 1925. Por 11 anos o cachorro foi aguardá-lo na mesma hora em que ele costumava regressar. Hoje, a estação tem o nome do animal.

Cachorros e seres humanos são mamíferos e, como tal, exigem cuidados permanentes, em especial na infância, na doença e na velhice. Manter vínculos de afeto é essencial à felicidade da espécie humana.

No século 19, o filósofo inglês Herbert Spencer disse que, na sociedade, os mais aptos progridem à custa dos menos aptos e, portanto, a competição é positiva e natural. E os que são cegos às verdadeiras causas da desigualdade social alegam que a miséria decorre do excesso de pessoas neste planeta, e que medidas rigorosas de limitação da natalidade devem ser aplicadas.

Somos sete bilhões de seres humanos e, segundo a FAO, produzimos alimentos para 12 bilhões de bocas. Como justificar a desnutrição de 1,3 bilhão de pessoas? A resposta é óbvia: não há excesso de bocas, há falta de justiça.

Quanto mais são derrubadas barreiras entre classes, mais os privilegiados se empenham em busca de justificativas para provar que, entre humanos, uns são naturalmente mais aptos que outros.

Com a Revolução Industrial, gente comum ficou rica, superando em fortuna a nobreza. Foi preciso então uma nova ideologia para tranquilizar aqueles que galgam o pico da opulência sem olhar para trás. “Que o Estado e a Igreja cuidem dos pobres”, insistiam eles. E tão logo o Estado e a Igreja passaram a dar atenção aos pobres, os privilegiados puseram a boca no trombone.

Preconceitos e discriminações não nascem na natureza. Brotam em nossas cabeças e contaminam as nossas almas.

Frei Betto é autor de ‘Fome de Deus’ (Paralela)

Você pode gostar