Milton Cunha: Ser, nascer, existir

Não quero chutar santa, não quero fazer piada com Alá, não quero me vestir de Shiva. Quero viver e deixar viver

Por O Dia

Rio - Fazendo o quadro “Pitacos do Milton” pro RJTV, eu falava de Fernando Pinto e sua vida sem regras, quando terminei meu texto bradando: “Viva a liberdade de ser aquilo que nasceu para existir!” Passou um tempo, e o Raphael daqui do Dia na Folia me encontrou e disse: “Criatura, quão filosófico, profundo, existencialista era aquilo que você disse sobre existir, nascer para ser. Você pensa este texto antes, estuda e fala, ou sai na hora?”. Olha, Rafa, eu penso muito desde que nasci; estudo, leio sempre, mas naquela hora eu não penso em nada, sai na força da erupção do pensamento. E repeti esta construção de ser, nascer, existir, pois é um raciocínio que me acompanha desde sempre.

Se nasci, sou legítimo para existir da maneira que escolhi, desde que isto não invada a seara alheia. O nascimento me credencia ao ser e estar no mundo, porque esta é a vida que tenho, dádiva. E não a desperdiçarei sendo o que os outros querem. Serei eu, o que existe em plenitude porque concebido e nascido. Recebo a graça de estar aqui, e faço isto da melhor maneira, porque é oportunidade imperdível. Se era pra ser outro, eu não deveria ter sido parido; e já que fui, aproveitarei. Me sabendo único, encaro todos os meus semelhantes como únicos também. Originalíssimos em seus universos pessoais, pois cada um tem sua cruz e caldeirinha, uma história única que nos forjou desta maneira particular que somos.

Não busco iguais, não quero gente padronizada. Não acredito em pensamentos totalizantes, tipo todo favelado é assim, nenhum argentino presta, acho balela não sacar o específico que é ser alguém. Me percebendo complexo, acredito na complexidade de cada um. Querendo ser eu, deixo os outros serem o que quiserem, e pergunto: isto é você ou o que os outros te convenceram de ser? Sou incapaz de ditar regras para o existir.

Tudo isto para chegar às três regrinhas que o juiz tenta impingir no misterioso mundo, para manter minha religião como desqualificada. Ele me diz que meu Deus é pior que o dele porque transmitimos oralmente e não por escrito sabedoria. Para ser, tenho que escrever. Depois ele me diz que minha hierarquia não é bacana, melhor a de quem tem Papa, Rabino, melhor escadinha que todos os sacerdotes livres para existir. Para ser, tenho que ter chefão. E por fim nada de vários Orixás e um Olorum, negativo, só pode ser um Deus e a-ca-bou. Para ser é necessário monoteísmo.

Como a vida é maior que qualquer despacho judicial, cultuo meu Candomblé, deixando as outras religiões em paz. Sendo da fé, acredito piamente na fé alheia e compreendo as grandezas dos dogmas. Não quero chutar santa, não quero fazer piada com Alá, não quero me vestir de Shiva. Quero viver e deixar viver.

E-mail: chapa@odia.com.br

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