Por bferreira

Rio - Joaquim Barbosa confirmou ontem o que se aventava desde o fim do ano passado: o primeiro negro a chegar à mais alta Corte da Justiça do Brasil se aposentará — e em um mês, o que causou certo espanto até entre seus pares. Em absoluto a renúncia à Presidência do Supremo significará o fim da carreira do magistrado, cujas aspirações políticas são conhecidas, mas imprecisas. No entanto, é um capítulo que se encerra, durante o qual a sociedade conheceu melhor o Judiciário, cobrou-lhe respostas e foi correspondida. Não à toa, Barbosa se refere ao tempo no STF como um “período fecundo”. Certamente contribuiu para a fertilidade.

Obstinado cruzado contra a corrupção, Barbosa empenhou-se numa causa que ficará indelével na história brasileira: a Ação Penal 470, o popular Julgamento do Mensalão, da qual foi relator — trabalho exaustivo, maciço, que desafiou suas crônicas dores nas costas. Em dois anos de sessões transmitidas na íntegra, porém, ficou nítido o comportamento de Barbosa. Incisivo, fiel aos seus ideais, discutiu calorosamente com colegas de plenário, parecendo não aceitar vozes dissonantes. Também destoou sua severidade na defesa de penas e na interpretação das leis — mas, para a sociedade, pôs na cadeia pessoas tidas como inimputáveis, em relação ao mais controverso escândalo de corrupção do país.

A composição do Supremo muda com os ventos de governos, mas Barbosa foi além das politicagens, serviu à Justiça como poucos e ajudou a aproximá-la do povo. Por isso, merece todo o respeito do brasileiro.

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