Por bferreira

Rio - Circunstâncias profissionais me fizeram conhecer Pavia, uma cidade distante 20km de Milão, Itália. A saudade dos amigos é grande, mas navegar é preciso. O Rio permanece em mim, sou teu cavalo.

No caminho pro hotel, elogio a pavimentação:

— Que beleza de estrada, conservada, asfalto liso...

— E antiga! É do tempo do Cesar.

— Não acredito? Cesar Maia?

— Não... Cesar, o Imperador Romano!

— Ahãm...

Percebo uma semelhança: os carabinieris também estão em greve. Pelo menos não reconheci uma farda, um quepe sequer nas vias, pra bater continência. Bem provável, estejam camuflados junto aos pardais nas lombadas inesperadas. Ninguém por aqui avança o sinal. Nem tudo são espinhos. A revista de bordo da Alitalia traz na capa e dez páginas um roteiro sobre o Brasil e a Copa. Só dicas e elogios.

Bem recebido, tenho que voltar ao samba, segunda próxima, mas no convívio desses dias, o Brasil resiste.

Em consideração, perguntas constrangedoras são evitadas. Nada de malária, febre amarela ou cobras e lagartos na Avenida Rio Branco.

Por aqui, todos invejam o sol nosso de cada dia, molham os beiços com o sabor do abacaxi e rezam pro Neymar perder gols. A música brasileira ainda é um mistério. Alguns se recordam do Vinicius de Moraes e seu indefectível copo de uísque. Claro, reconhecem a ‘Aquarela do Brasil’ e solfejam no coro de ‘Tristeza’ braços erguidos pelo sangue latino. Às novidades, estão dispostos.

Planto uma pequena semente do quintal de Nino Rota. Cada um no seu ‘Scala’.

A bem da verdade nos embevecemos com a maçã do vizinho, sempre mais vermelha. Na raiz dos fatos, o que vale germina no chão que vivemos, favelas ou palácios, o pau-a-pique sempre do próprio barro.
Uma brasileira, quase italiana, traz um embrulho com coxinhas de galinha: — É pra lembrar dos teus botequins!

Mordo meio Chico & Alaíde, tempero Da Gema, Aconchego e Bracarense, recheio de reminiscências. Um tinto harmoniza os hemisférios. Viver em paz é a minha bandeira.

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