Por bferreira

Rio - Parte dos brasileiros passou a agir como crianças mimadas, que se jogam no chão quando a mãe diz que não vai comprar doces. Cientes do constrangimento que provocarão no poder constituído — a mãe —, berram, esperneiam, simulam convulsões. Não há negociação, tudo é na base do grito. As novas e diminutas manifestações e o tiroteio travado no Facebook revelam o Joaquim Barbosa que dormia em muita gente — todos têm carradas de razão. O país virou um conjunto de torcidas organizadas, de facções que pregam a destruição do inimigo. Ficou difícil argumentar, relativizar.

A lógica futebolística — infantil, excludente, contaminada pela paixão — transbordou para o debate público. Adjetivos são lançados de maneira irresponsável, como gritos em estádios: Dilma é isso, Aécio é aquilo; todos os policiais são violentos e corruptos, nenhum político se salva. A lógica dos linchadores se implantou entre nós, manifestantes expulsam das ruas aqueles que consideram adversários, que têm posições diferentes. Participantes de atos públicos só classificam de violenta a atuação da polícia; em repetidas flechadas nos fatos, se recusam a admitir as agressões que cometem.

Grupos de 200 pessoas consideram ter o direito de bloquear ruas, de atrapalhar a vida da cidade. Professores que só fazem greve na rede pública cercaram e deram pancadas no ônibus da Seleção — caramba, os jogadores não definem os salários do magistério, não são culpados pela Copa ser no Brasil, não superfaturaram estádios. Convidado para um debate, um amigo foi hostilizado por ter ido ao encontro com a camisa da Seleção. Questionado, disse que a CBF não poderia ser dona do amor que sentimos pelo futebol. Torcer pela equipe pentacampeã virou crime de lesa-pobre.

Defensores dos direitos humanos, que dizem condenar policiais que espancam presos, acham compreensível agredir repórter porque a TV ou o jornal em que ele trabalha apoiou a ditadura ou dá às manifestações uma cobertura diferente da sonhada por seus organizadores. Esta lógica permite absolver qualquer criminoso, a violência nunca é gratuita aos olhos de quem a pratica. Ninguém pode bater em ninguém, admitir exceções abre portas para a barbárie.

É fundamental interromper o Fla-Flu em que se transformou o país. Viver em sociedade requer flexibilidade, disposição para ouvir o outro, a birra não é uma atitude política. Quem quer ser ouvido precisa aprender a escutar, crianças e ditadores é que se acham donos da verdade.

E-mail: [email protected]

Você pode gostar