Por felipe.martins

Rio - Fui ver a 8ª Bienal do Livro de Campos, semana passada. Acompanho de perto a ação cultural de minha queridíssima Rosinha Garotinho, pois procuro nela o personagem preconceituoso e provinciano que meus amigos da Zona Sul do Rio, também queridíssimos, criaram. Não encontro: vejo-a democrata, preocupada com os menos favorecidos e lutando bravamente para evoluir sua cidade natal, que está bacanérrima. A população da região a endeusa, os da capital a demonizam, e ela segue trabalhando, tenaz que é, e eu a descrevo humana, comprometida e boa líder. É evangélica, e isto pesa sobre sua persona pública, como deve pesar de alguma maneira na minha avaliação, o fato de eu ser gay assumido (isso sei lá pra quem!).

Quis o destino que fôssemos amigos, minha energia vai com a dela. E quando olho o leque de escritores que ela abre, escalando desde Fernanda Abreu e MC Marcinho para falarem da cultura funk nas comunidades do Rio, até os clássicos Ferreira Gullar, Nélida Piñon e Marta Medeiros, fico achando que faltou mesmo escalar um pastor para que aconteça na literatura o mesmo que ela promove no Cepop (Centro de Eventos Populares, um supersambódromo para o desfile folião e que vira tenda refrigerada para as letras) durante o Campos Folia: o encontro da religião com a arte. Um bloco carnavalesco de evangélicos desfila, enorme, com 2 mil componentes, cantando e sambando em louvor a Jesus.

Ninguém tem medo ou ódio de ninguém e assim vamos convivendo pacificamente, rumo aos improváveis diálogos da altermodernidade. Pois a Bienal dos Goytacazes bombou, foi uma loucura maravilhosa, que vendeu 500 mil livros. Mas só dinheiro não importa e, como mato a cobra e mostro o pau (ui!), vai aqui o que consegui ver de descolado lá pelos Campos garotinhais: os professores têm crédito para livros; das 100 palestras, mesas, apresentações, destaco o menino Valmique, 14 anos, que, poeta, ganhou o concurso de ciências da Nasa, portanto mais um misturador de mundo supostamente separados. Lendo seu livro de poemas, pensando em seu talento para as ciências, muitos perceberão que os mundos não se excluem e sim se complementam.

Ao falar sobre o tema ‘adoção: conceber no coração’, amei o desembargador Siro Darlan indagando para a plateia: “Como nós, filhos da África, podemos ser racistas?”. Pois é... Como já dizia Luis Carlos da Vila, é preciso atitude para assumir a negritude. “Há uma preferência por criança branca e do sexo feminino.

Isso é um problema cultural que tem que ser combatido. Temos que parar de dar bananas para nossas crianças”, continuou ele. Foi assim, entre clássicos e modernos, que saí da bienal repaginado e cada vez mais admirador deste misterioso mundão de Deus.

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