Por bferreira

Rio - O dicionário ‘Houaiss’ explica: ‘encafifado’ quer dizer ‘encher-se de timidez, envergonhar-se, acanhar-se, desgostar-se, descontentar-se ou não obter êxito’. Eu, que gosto tanto de futebol, estou encafifado com esta Copa do Mundo da Fifa no Brasil.

Ando tímido para entrar na corrente da seleção canarinho, cheia de craques ‘estrangeiros’. Meus vizinhos não querem enfeitar a rua, por medo de a Fifa cobrar ‘royalties’, como fez com o Alzirão, e porque acham mais importante a prefeitura fechar um buraco antigo e retirar um poste que ameaça cair.

Sinto-me envergonhado ao ver que o Brasil já ganhou um triste título mundial: foi o país-sede do evento em que mais morreram operários — nove! — nas obras de reforma e construção de estádios.

Fico acanhado ao ver o legado acanhado que ficará para a população: apenas 40% das obras viárias anunciadas, e só para acesso aos estádios, ao preço da antissocial remoção de milhares de famílias pobres. Cadê a reconstrução do Estádio de Atletismo Célio de Barros e do antigo Museu do Índio, no Complexo do Maracanã?

É desgostoso ver que os atrasos geraram superfaturamento. São R$ 25 bilhões de dinheiro público, em investimentos do BNDES, da Caixa e do Banco do Brasil, além de recursos orçamentários da União, dos estados e municípios onde ocorrerão as partidas. Quem gosta dessa prioridade em país com tantas carências?

Há, assim, um descontentamento geral, que pode ser resumido na pergunta: Copa para quem? Aliás, os ingressos caríssimos são para um público especial. Na final, no Maracanã, apenas 15% da plateia será de moradores do Rio. Contentemo-nos com a TV. Que ao menos haja um time de nascidos no Brasil em campo...

Ainda que conquistemos o Hexa, não poderemos dizer que o megaevento obteve êxito em relação ao tanto que foi prometido, há sete anos. Não há como não ficar encafifado.

Chico Alencar é professor de História e deputado federal pelo Psol

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