Moacyr Luz: Vai ter Copa

Aturei laranjitos, leopardos e outros mascotes. Perto deles, Fuleco é um Alain Delon de beleza, guapo rapaz

Por O Dia

Rio - Estranhei o vizinho descendo o elevador, mascarado e ofegante. Mal sussurrou um “bom dia” na portaria, tirou da mochila uma vareta , folha enrolada na ponta e atravessou aos berros:

— Brasil! Brasil!

Só não queria ser reconhecido.

No Bar Solange, a rifa da TV está fechada. Os mais talentosos ou menos trêmulos se encarregam das rabiolas em verde-e-amarelo enquanto, no bolão, todas as combinações levam o Brasil à final. Por fora, na aposta, dois engradados de cerveja e um uísque importado.

Lembro de, pirralho, juntar cofrinhos da Delfin, imaginando um dia ir à Copa. Chapéus exóticos nas ruas embandeiradas, descobrindo conterrâneos em terras distantes.

Pois é, a Copa veio até mim.

Vejo os estádios à distância de um botequim de esquina, embora essas biroscas custem bem menos de um camarote lateral.

Sei que também estou proibido de pintar de 2014 na reciclada camisa amarela, mas a Copa está na edícula de casa, negar é jogar pra baixo do tapete os sonhos de um torcedor.

Tenho de cor a escalação de todos os títulos, me embebedei em diferentes fusos, Coréia, Alemanha. Colecionei figurinhas da Inglaterra, engasguei com as pimentas mexicanas, só pra ser gentil aos muchachos de setenta e hoje, passa o Neymar na minha rua e eu tenho que jogar pedras, um artilheiro à Madalena. É difícil.

Aturei laranjitos, leopardos e outros mascotes. Perto deles, Fuleco é um Alain Delon de beleza, um guapo rapaz de muito valor, longe de confundir com furreco, merreca, termos em desuso nessa competiçao.

O jornal local registra a fila pra comprar ingressos. A tecnologia é brasileira: um solícito anota por ordem de chegada os nomes no papel almaço, margem dobrada, caligrafia prejudicada. O cambista chama no canto, puro Azambuja do bilhete premiado.

Ainda carrego a cisma de uma tarde cruzar com o suíço Joseph Blatter no Petisco da Vila perguntando pelo Samba do Trabalhador.

Às mazelas, cobrança eterna.

Cambiado os olhos da cara, aeroportos pelos ares, tudo justo, mas deixem eu torcer belo Brasil!


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