Editorial: Descontentamento não é incivilidade

Dantesca a cena de um Itaquerão lotado xingando a presidenta Dilma Rousseff, na estreia da Seleção na Copa

Por O Dia

Rio - Dantesca a cena de um Itaquerão lotado xingando a presidenta Dilma Rousseff, na estreia da Seleção na Copa, quinta-feira. A mesma torcida que sustentou a capella o hino nacional após a protocolar execução pela Fifa, num espetáculo de civismo, protagonizou um dos episódios mais lamentáveis da Nova República. As ofensas em coro de uma elite que se diz melhor que qualquer black bloc nivelaram aquele público ao pior do vandalismo.

Vaias são comuns — e legítimas — no meio político, sobretudo em grandes eventos, e todos os presidentes da história recente do país as experimentaram, inclusive Dilma — que teve uma vida de privações na ditadura e ocupa o Planalto porque lá chegou democraticamente. Apupos são ferramenta eficaz da população descontente, e nesta Copa há inúmeros pontos onde a reprovação é justa e tem de ser expressada, pois assim garante a Constituição. Já xingamentos fogem da civilidade; são resultado da raiva irracional e da intolerância, equiparando-se a depredações, linchamentos e ‘justicismos’.

O ambiente hostil já era esperado e alterou até o protocolo da Fifa, que cortou todos os discursos. As vaias repercutiram pessimamente no exterior. Mais uma vez, existem formas respeitosas de discordar, de protestar na rua e de fazer valer seu ponto de vista. Uma democracia não lava roupa suja em público nem patrocina bate-bocas: ela se resolve nas eleições, e as de outubro estão aí.

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