Maria Amália Souza: Copa de violações

As remoções da Copa incluem violações de direitos humanos que copiaram o modelo nazista de se marcar uma casa num dia para demolir no outro

Por O Dia

Rio - A realização da Copa do Mundo no Brasil marcará para alguns a celebração máxima do futebol e, para muitos, especialmente as populações mais pobres, a contagem de perdas materiais imensas e violência além da conta. As violações de direitos humanos para que os jogos aconteçam incluem o direito a moradia, os impactos ambientais e a arbitrariedade no tratamento das populações afetadas nas periferias das cidades-sede e nas regiões do entorno turístico, modificando a vida de indígenas, quilombolas e caiçaras.

As arbitrariedades que ocorreram no processo de preparação do Mundial se refletem em outras instâncias da sociedade. Vê-se uma relação direta entre o enriquecimento das instituições financeiras e a diminuição do Estado de Direito em todas as áreas sociais e ambientais.

As remoções da Copa incluem violações de direitos humanos que copiaram o modelo nazista de se marcar uma casa num dia para demolir no outro. Faz-se uso da Força Nacional para aterrorizar povos indígenas que não concordam que suas terras sejam inundadas por hidrelétricas. Criam-se emendas constitucionais que diminuem áreas protegidas dos nossos ricos e únicos ecossistemas para viabilizar obras. Todos direitos constitucionais garantidos sendo violados diariamente, e a lista só cresce.

O que menos há nesse processo é democracia, mas, por conta da solidariedade, as pessoas não se calaram. Mais de 200 mil famílias ameaçadas ou que foram removidas não se sentiram abandonadas, lutando pela própria sorte. Isso fez com que algumas comunidades, antes fadadas ao anonimato, conseguissem projetar suas reivindicações, muitas atendidas, outras mitigadas, em geral conquistando a simpatia da sociedade através de histórias tocantes de resistência, de não se entregar sem demandar o cumprimento de leis e convenções internacionais que lhes garantem direitos que estão sendo ignorados pelas autoridades.

Se há um legado positivo da Copa, é a curiosa e inesperada aquisição de consciência do poder cidadão, da negociação, da união de setores diversos da sociedade por reivindicar direitos. Criou-se uma opinião informada e crítica sobre um evento nunca antes questionado pela grande massa da população brasileira. Nada justifica a forma com que os cidadãos estão sendo tratados, mas resta o consolo de saber que as vozes das pessoas afetadas estão e continuarão sendo ouvidas, mostrando a real face desta Copa de violação de direitos que foi e está sendo executada, o que começa a afetar nossa imagem internacional como país enganosamente moderno e democrático.

Maria Amália Souza é diretora-executiva do Fundo Socioambiental Casa

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