Por adriano.araujo

Rio - Eis que desperta o dragão da inflação! E começa a escapar do controle do governo, livre da precária jaula das políticas monetaristas que se recusam a mexer nas arcaicas estruturas que sustentam a sociedade brasileira.

A principal vítima é a classe média, que, graças ao governo petista dos últimos 12 anos, ampliou seu contingente. Hoje, a população brasileira é de 200 milhões, dos quais 108 milhões estão na classe média, de famílias com renda mensal de R$ 1.216 a R$ 4.256.

Graças às políticas sociais, à facilidade de crédito, à desoneração de produtos da linha branca e, sobretudo, ao aumento real do salário mínimo a cada ano, 55 milhões de brasileiros migraram, na última década, da classe pobre para a média. Esses emergentes movimentam, por ano, R$ 1,17 trilhão.

Diante do acúmulo da inflação, que subiu 6,28% de maio de 2013 a maio deste ano, e chegou a 8,99% no setor de serviços, a fera à solta já abocanhou, no mesmo período, R$ 73,4 bilhões. O cinto começa a apertar...

O brasileiro está mais cauteloso com as compras. A farra do carro novo perdeu fôlego. É verdade que a classe média, que abrange 58% da população, ainda anda faceira: viagens ao exterior, academia de ginástica, salão de beleza, shopping center... Isto é mérito do governo: dentro de qualquer barraco de favela são encontrados telefones celulares, TV em cores, geladeira, máquina de lavar e fogão.

Se a classe média brasileira fosse um país, ela integraria o G-20, o grupo das 20 nações mais ricas do mundo. Porém, a desigualdade é gritante. Basta dizer que 43% dessa classe emergente habita o Sudeste do Brasil. Cada trabalhador destina 150 dias de trabalho apenas para pagar seus impostos. A mobilidade urbana está cada vez mais engessada: carros de mais, ruas de menos; ônibus precários e caros; metrôs curtos e superlotados, insuficientes para absorver tantos passageiros nas horas de pico.

Ora, estamos em ano eleitoral. Apesar de o dragão escancarar a bocarra, acredito que o governo não contribuirá para aumentar a sua fúria e tomará medidas paliativas, como evitar reajustar o preço dos combustíveis.

Contudo, terá que suportar a pressão das categorias profissionais que se julgam no direito de ver seus salários corrigidos pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). E haja manifestações, paralisações e greves! Aliás, um direito constitucional, por mais que incomodem. E ninguém ostenta mais pós-doutorado em greves do que o PT.

?Frei Betto é autor de 'O que a vida me ensinou' (Saraiva)

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