Milton Cunha: Eros e Thanatos

Todos na defensiva, todos no ataque, e a maldade quase possível de se tocar no ar. Concentrada a coisa da culpa...

Por O Dia

Rio - A alta voltagem erótica do Ballet Belle me deslumbra, porque adoro ser surpreendido pelo estranhamento que a obra de arte pode causar. Não me sento numa plateia para sair o mesmo: quero arregalar olhos, me pegar dizendo “gente, que inesperado”. E como o nível técnico da montagem é altíssimo, já estou careca de saber que tudo será desempenhado com precisão cirúrgica. Me acostumei a pernas que sobem simétricas, quase medidas a régua. Portanto, já chego dizendo “sim... e daí?”. Daí que a inquieta Deborah Colker sempre surge com novidades que dão passo à frente, sempre ajudada pelo divino cenógrafo Gringo Cardia. Ambos criadores de mão cheia, são celeiros de novas propostas, e o pole dance abatjour é simplesmente magistral, de tirar o fôlego. E tem uma pegada brasileira e moderna, nos torneados corpos e minúsculos figurinos. Tudo de bom gosto, sem negar a pegada prostíbulo. Isto é muito Las Vegas, no melhor sentido que esta afirmação pode ter, significando montagens pensadas para o entretenimento que seduza e faça pensar. Sem negar jamais que é preciso pegar o espectador pelo cabresto, e só deixá-lo partir quando cai o pano. Mais que dança, um show. Mais que show, pesquisa. Vida longa para a companhia e a coragem da pequena loura notável.

Isto posto, quero contar que um dos locais que percorri na tentativa de gravar o maravilhoso quadro ‘Me dá um help aí?’, para o ‘RJTV’, foi a Praça do Lido, querendo entrevistar garçons e saber como eles estão se virando no inglês. Minha gente, que barra pesada esta parte de Copacabana. Que energia negativa, que voltagem pra baixo. Talvez porque ali ninguém possa aparecer, nem cliente nem prostituta, então as câmeras não podem trabalhar. E enquanto eu aguardava, fiquei a observar a moça bunduda, metida num shortinho e top que a deixavam desvalida, abandonada, carne em açougue. A grosseria daqueles homens que nelas se esfregam, as brincadeiras horrorosas, a subserviência. Enfim, de fácil nada tem esta vida e este dinheiro, dificílimo, porque os estrangeiros as humilham, antes que elas os humilhem.

Todos na defensiva, todos no ataque, e a maldade quase possível de se tocar no ar. Muito concentrada a coisa da culpa, do que levou aquela gente ali. Como a pauta naufragou ali, partimos para bares sem a tônica da viração, mas todos absolutamente lotados de gringos e brasileiros. Será que vão nascer muitos filhos da Copa? Seria uma geração Fuleco, parida nove meses depois destes 30 dias de loucura total. Maternidades, preparem-se....

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