Karla Rondon Prado: Pescaria mental

Se abrirmos mão do otimismo e da ilusão, viveremos como zumbis à espera do fim, da próxima vítima

Por O Dia

Rio - Eu e minha irmã pensamos de formas muito diferentes, mas conhecemos uma à outra. E acho que quando ela me revelou isso, sabia que eu ficaria feliz. Contou que quando meu sobrinho acabou de assistir pela primeira vez à ‘A Vida é Bela’ disse, depois dos créditos: “Parece a Karla”. Fiquei tocada. Ele, então com 15 anos, entendeu assim o filme. Apesar de ser uma obra ‘recente’, já é um clássico, que até me deixou meio nervosa quando assisti, no ano em que deu o Oscar a Roberto Benigni (1999).

Mas por que será que a história do pai que vai com o filho para um campo de concentração e tenta fazer com que o menino ache tudo aquilo uma grande brincadeira na época me incomodou? Era para enxergarmos o ludismo apesar da tragédia. Mas o incômodo veio talvez por, de fora, enxergar o quanto aquela situação é claustrofóbica. A vida, com a iminência da morte, é claustrofóbica. Mas o que fazer se há essa definição de tempo e espaço para todos e isso é inevitável? Viver, ora.

Buscar o melhor todos os dias, apesar de tudo que temos conhecimento que é ruim, é muito denso. Coisa da fluidez de um gole de água tônica. Permanecer bêbado, anestesiado, ou ter a consciência de que o perigo é real e, por isso mesmo, iremos nos deparar com ele? Enfrentar o que se segue, ultrapassando a garganta fechada da realidade, é um exercício e tanto. Um choque de realidade que ganha como oponente a fantasia, esta tão maior, tão rica em detalhes, tão esplendorosamente espetacular. E infinita.

Se abrirmos mão do otimismo e da ilusão, viveremos como zumbis à espera do fim, da próxima vítima, do choque entre os planetas e ‘the end’.

Extrair o melhor é duro. Requer tirar o pior primeiro, como quem faz manteiga clarificada: ferve-se, retira-se a gordura que boia por cima e joga-se fora, desprezando aquilo que faz mal e ficando com o lado bom da vida, o prazer saudável amaciando o pão.

Saber ser feliz não significa ser alienado. E esse estado de espírito independe de status, raça, classe social, posses, lugar no mundo. É genuíno, ‘incomprável’, inegociável. Vamos lá! Deixemos de lado o sedentarismo com relação à positividade, para tonificar o otimismo.


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