Moacyr Luz: A prorrogação

Entendo a prorrogação como a saideira feita pra perdera aliança, achar o batom na camisa...

Por O Dia

Rio - Um amigo confidencia, mordendo a crista da picanha:

— Moa, ‘tô’ com a validade vencida. O que vier é lucro!

Discordo. Meu pensamento encosta no mantra dos grupos de apoio, “um dia de cada vez”, impressionado com a intensa vida na terceira idade dos jogos.

Sim, a prorrogação. Já não é mais o cigarro aceso, o “foi bom pra você?”, aquele me engana que eu gosto pro outro dormir. Nessa Copa de tantos desafios, a vitória no tempo normal, apenas, não satisfaz:

— Acabou?

O recipiente de água, marketing puro, esguicha na testa porejada do artilheiro, calor de Manaus combinado com a excitação carioca. Aindam faltam dois tempos de peleja.

Entendo a prorrogação como a saideira feita pra perder a aliança, achar o batom na camisa, perder a vergonha, achar a porta de casa.

O atleta parte pra bola como um prato de comida. Esquece a dor nas pernas, o pensamento corre pro bote, pro rebote, os três dedos na câmera lenta do replay. Similar, um gaiato esquece a bolsa no taxi, o celular no amassado paletó e o pensamento corre, aos trancos, pro último bar aberto. Pra ele, nessa hora, a dose vem mais chorada, a carne assada tá no ponto, a vista não cansa. Todas as luzes acendem às quatro manhã. Nem percebe o galo cantar e o céu azular, na linha do mar.
Prorrogação é isso: as luzes acendem, sempre.

Verdade seja dita, há algumas esticadas no escurinho fora do cinema. Hoje o Brasil enfrenta a Colômbia, dois amarelinhos. Um é mais canário. Já me basta o forçado eletrocardiograma a que me submeti no sábado das oitavas. Nem o plano de saúde quis cobrar, por amor à patria. Uma overdose contra os Rincóns, não aguento. Tem mais. Na pelada, um grito se sobressai:

— Deixa que eu chuto!

Traduzindo pra lamúria:

— Se é pra chorar, choro eu.

Aceito o lenço na forma de TV de Led, creme de barbear, dois Peugeots ou a cobertura na Taquara, pronta pra morar. Também deságuo no Hino Nacional. Principalmente na prorrogação à capela, sem instrumentos.

Com alguns boletos prorrogados, a Seleção tá devendo. Rezo pro São Instituto de Meteorologia,padroeiro das previsões perdidas, que clareie os nossos caminhos até a jornada final. Eu, prorrogando a crônica, aviso que neste domingo tem Samba do Trabalhador, na Glória.

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