Por felipe.martins

Rio - O repertório vocabular de Eduardo Paes, que utilizou nos seus discursos “bacanal eleitoral” para se referir às coligações, introduziu nos dicionários da ciência política nestas eleições uma linguagem de orgias em ambientes de bordel, onde vale tudo, inclusive homem com homem e mulher com mulher, em versão dialética às estrofes da música de Tim Maia, quando compôs que “vale, vale tudo, só não vale dançar homem com homem, nem mulher com mulher — o resto vale...”

O cantor-compositor estabeleceu limites nos seus devaneios, mesmo sendo artista. A linguagem utilizada por Eduardo, apesar de intraduzível na formação e socialização política de adolescentes que estão em idade de adquirir título eleitoral, tem pano de fundo, visando a possíveis dissidências à sucessão para prefeito nas eleições de 2016.

Não se tem dúvidas de que as coligações que estão acontecendo entre partidos surpreendem os mais ‘raposas’ dos analistas políticos que estão de plantão. Mas, ao lexicografar o termo orgiástico, Eduardo sinaliza que a campanha para prefeito traz rupturas de alianças até agora bem-sucedidas entre ele e Cabral para as próximas eleições.

Cabral, ao montar o tabuleiro do xadrez da ampla coligação política de centro-direita no estado, aglutinando 19 partidos em torno da candidatura de Pezão — que tem 13% de intenções de voto no Ibope —, 75 prefeitos aliados e com poder de fogo de 11 minutos de propaganda na TV, sai da cena política sem disputar cargo eletivo, mas cria ambiente para disputar as eleições para prefeito e se tornar o dono do poder na capital.

Eduardo é a primeira vítima das astúcias de Cabral. Picciani sonha que seu filho Leonardo será postulante à sucessão de prefeito do Rio, mas deveria começar a acordar, pois Cabral tem plena consciência de que poder se exerce na plenitude, aniquilando pretensões de possíveis adversários. Reconstruindo sua imagem, age como exímio estrategista ao optar em ficar na ‘tribuna VIP’ ditando as regras da sucessão. Aboliu a propaganda institucional de seu governo e partiu para mostrar realizações como o ‘Arco Rodoviário’ em horário nobre do ‘Jornal Nacional’. Seu lema é mostrar que fez.

Ao partir para o ataque, blinda as ambições de Eduardo, que pretende fazer o deputado Pedro Paulo seu sucessor. Joga pesado com as candidaturas de cunho populista e de fundo religioso (PR e PRB) da máquina dos evangélicos pentecostais que dominam a Baixada Fluminense, que têm votos cativos dos eleitores menos escolarizados e de baixa renda (D e E) na região.

A linguagem de Eduardo e as coligações inimagináveis de atores políticos de direita no estado ressuscitando viúvas do Lacerdismo, que estavam no mausoléu dos historiadores, fotografam insurreição quase surda nos labirintos do poder, colocando Cabral ou Eduardo em estradas distintas a caminho do inferno político. Cabe a Clarissa Garotinho (PR), candidata declarada a prefeita do Rio, orar peregrinando na ‘via-crúcis’ relembrando personagens bíblicos como o ‘ex-prefeito Pilatos’ e Judas. Volto na próxima semana.

Wilson Diniz é economista e analista político

Você pode gostar