Karla Rondon Prado: Foi a Alemanha que comprou a Copa?

Não aceitar tudo que se lê e se vê como verdadeiro, duvidar sempre, seja pensando positivo ou negativo

Por bferreira

Rio - O dia amanheceu chuvoso no Rio, e eu pensei: o tempo é solidário e chora com você. Em seguida, mudei de ideia: que dia feio, mas tomara que o Brasil ganhe da Alemanha para reverter isso. Festa da vitória tem outro colorido. Felicidade colore o tempo. Ou não teria como ser feliz em Londres. Aliás, quando está estranho o tempo, a ponto de nos tirar a coragem, logo finjo que estou de férias em outro continente nublado, que de férias não tem tempo ruim.

Uma ida à rua e lá aparecem de novo os dois pensamentos opostos. Camelô lotado. Tem réplica da taça, corneta, bandeira FluBrasil, bonés e acessórios em verde e amarelo. Depois de entrar num ônibus todo paramentado, o sujeito volta correndo: “Esqueci o mastro!” Um buzinaço ensurdecedor e penso que o cara tem até as 17h para vender tudo. Mais adiante, no engarrafamento debaixo d'água, outro ambulante carregado como árvore de Natal, sob um olhar meu distraído e otimista: vai ficar rico depois da partida!

Não temos mais Neymar, sofremos com o lance de Zúñiga sem punição, desculpamos um possível fracasso da Seleção, mas também conseguimos reverter a derrota, pensando que, quem sabe, o destino não foi tão mau assim, apenas quis sorrir para Bernard ou Oscar. Seria a Copa sob outro paradigma. Somos brasileiros, muitas vezes vacilamos, mas não desistimos nunca. Mesmo sob críticas, isso é uma verdade.

Dois pensamentos, duas vertentes. O medo do fim da Copa precocemente, com o embargo da rotina de turistas, policiamento reforçado, ilha da fantasia. Vida que segue com suas angústias e surpresas. Período festivo como Carnaval, Copa, vêm aí as eleições. É bom? É ruim? É “autus” da brincadeira e vamos em frente? Não sei, só desconfio de tudo.

Mas a Copa não estava comprada? Não aceitar tudo que se lê e se vê como verdadeiro, checar sempre, ver até as quintas intenções, duvidar, seja pensando positivo ou negativo.

Espera, está 3 a 0, só tem 24 minutos, faltam três vezes mais tempo. “Ué? Gol da Alemanha de novo?” Achei que fosse replay. De novo. “Acabou”, dizem. “Não tem, na história do futebol, uma capacidade de reação que consiga virar um jogo de 5 a 0?” “Não”, dizem os especialistas. Vou esperar o segundo tempo. “Não acabou”, digo. Insisto. “Felipão tem direito a três mexidas? O que pode ser?”, pergunto, tentando uma resposta positiva. “Podem ser três goleiros”, brinca o amigo. Julio Cesar: um dia herói, outro vilão. “A vida não acaba com essa derrota”, diz o técnico. Hoje, mesmo com sol, o Brasil acordou nublado. Mas calma. Poderia ser a Argentina...

E-mail: karlaprado@odia.com.br

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