Editorial: 'Foi-se a Copa?', eis as prioridades

Cabe agir com justiça, reconhecendo que, sim, o Brasil sedia um Mundial excelente; é com essa maturidade que espera-se definir prioridades e conduzir até outubro

Por bferreira

Rio - A 24 de junho de 1978, quando o Brasil disputava — e ganhava — o terceiro lugar contra a Itália, num Mundial enquanto a Argentina triunfava em casa ao arrebatar a sua primeira taça, Carlos Drummond de Andrade publicava no ‘Jornal do Brasil’ o poema ‘Foi-se a Copa?’. Era uma curta, porém bela, reflexão sobre o estado de ressaca e de recomeço que agora se repete, de forma ainda mais violenta, com a humilhante e histórica derrota para os alemães. O poeta de Itabira escreveu: “Não faz mal. Adeus chutes e sistemas. A gente pode, afinal, cuidar de nossos problemas.” É muito pertinente que hoje se atente para eles.

Em 1978 o Brasil tinha outros problemas. Drummond se preocupava mais com a ditadura e conclamava o povo a “deixar de ser tonto” e a “chutar no alvo exato”. A “Copa da Liberdade” era o mais importante, a qual o brasileiro, “havendo tenacidade, ganhará, rijo, e de cheio”.

Mas também havia a inflação — se hoje ela não “perdura”, como em 1978, ela ameaça. É este o paralelo entre os dois Mundiais. O país está a 88 dias das eleições e precisa, nesse curto espaço de tempo, debater diversas questões. Algumas eclodiram por causa da Copa, como as antigas reivindicações com a Saúde e a Educação. Mas o eleitorado precisa fomentar debates sobre a estagnação da economia, os gargalos logísticos, a mobilidade urbana e a segurança.

É importante que nessa discussão se evite o maniqueísmo que por vezes brota em situações como essa. Até a derrota vexatória, tudo estava bem, sobravam otimismo e patriotismo. Agora há quem se enxergue na danação. Cabe agir com justiça, reconhecendo que, sim, o Brasil sedia um Mundial excelente; é com essa maturidade que espera-se definir prioridades e conduzir até outubro.

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