Por bferreira

Rio - ‘O choque da goleada relâmpago anestesiou a dor da derrota”, escreveu meu filho Duda, assim que acabou o vexame de terça-feira. Foi assim mesmo que me senti vendo aquele jogo: anestesiada. Minha ficha demorou a cair. Os cinco gols em 29 minutos ou três gols em seis minutos chocaram tanto que a anestesia ainda permanece, ainda continuo meio que anestesiada quase 40 horas depois. Não sei quando este clima de decepção e perplexidade vai passar. Mas o clima de luto coletivo está no ar e temo que nele ficará ainda por muito tempo.

Claro que eu sei que o mundo não acabou, mas a sensação de sonho perdido reforça a angústia e amplia o silêncio que tomou conta das ruas, das pessoas e das nossas vidas nas últimas horas. Já li as explicações, análises e interpretações desta derrota acachapante e nada me satisfez. Nada consegue justificar, nem mesmo dar um alento para a derrota. Também sei que perder é do jogo. Mas é preciso que haja jogo para que a gente admita perder. Perder lutando é uma coisa. Perder sem saber como lutar é outra. “A maionese desandou no Mineirão”, falou Datena. “O Brasil não pode mais ser chamado de país do futebol”, escreveu Carpinejar. Na tentativa de encontrar um táxi para voltar pra casa depois do jogo, o silêncio era de doer. Incomodava mais que todos os barulhos que as cornetas e vuvuzelas fizeram nas horas anteriores ao começo do jogo ou nos dias de partidas anteriores em que fomos mais felizes.

Enfeitadas com bandeiras, as janelas e varandas, agora apagadas reforçavam o luto. “Pior que perder da Alemanha por sete só é melhor que perder da Argentina na final”, escreveu alguém numa rede social. “O único que pode fazer a gente esquecer este sete a um é um alemão: Alzheimer”, escreveu outro.

Nem dá para ficar com raiva dos alemães. Afinal, eles só fizeram o que deveríamos ter feito: jogado futebol. Eles nos fizeram passar a maior vergonha da história fazendo exatamente o que é para ser feito: gols. Não machucaram ninguém. Não mandaram ninguém para casa ou para o hospital. Apenas jogaram bola. Cá pra nós, não foi só na Copa. A Copa é reflexo. O futebol brasileiro anda de mal a pior faz muito tempo. O futebol dos nossos campeonatos regionais e nacional, mesmo com honrosas exceções, anda maltrapilho e maltratado, mal organizado e mal planejado. Todos nós, que gostamos do esporte, sabemos disto. Podíamos até fingir que não era bem assim. Afinal, sonhar é preciso. Mas, agora, não podemos mais. A realidade é cruel e está aí. “E agora José?”, perguntou o poeta. E agora? Perguntamos todos nós.

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