Leda Nagle: O medo nosso de cada dia

Sem política contra a violência, não me espanta a mínima que o remédio mais consumido no país seja o Rivotril

Por O Dia

Rio - O assunto é sempre o mesmo. A violência. O assalto. A saidinha do banco. O absurdo que aconteceu com a querida e simpática empresária e que acontece todo dia na nossa cidade, no nosso país. Entro no táxi e, do nada, como que adivinhando o que está passando toda hora, como filme, pela minha cabeça, o motorista me conta que, agora, quando vai ao banco, tem medo de tirar dinheiro. Comprou umas roupas numa loja de departamentos e o sistema da loja estava fora do ar. Ele, um homem alto e forte, com cara de valente até demais, ficou cheio de medo de pegar R$ 300 no banco em frente à loja para pagar as roupas. Relutou, mas acabou vencendo o medo e fazendo o negócio, mas não quer repetir a experiência.

Ele não é o único. O empresário que está fazendo obra também teve muito medo de ir ao banco e também me conta que temeu por sua própria vida para pegar a quantia de dinheiro necessária para pagar o trabalho da semana aos operários. E decidiu: vai abrir uma conta para seus funcionários e acabar com o tormento. O medo é democrático e paralisante. Perpassa todas as classes. O medo não sai da nossa cabeça quando andamos pela rua, quando fazemos as coisas mais simples, como ir ao banco, comprar roupas, usar o caixa eletrônico. O medo mudou nossos hábitos. Muda nosso rumo e faz o que me conta outro taxista: desistir de pegar passageiros na rua. Agora, só aceita clientes pelo aplicativo ou pela cooperativa.

Confessa que recusa passageiros por conta da aparência e do destino pretendido. E aproveita para contar os vários assaltos que ele e seus amigos já passaram. Sei que muita gente vai dizer, e com razão, que ele está sendo preconceituoso. E está. Mas, sejamos sinceros, quem não está com medo? Quem, hoje, não repara na aparência, no jeito ou no gesto das pessoas que estão por perto, no banco, ao seu lado na rua, esperando o sinal abrir ou fechar? Claro que estou cansada de saber da verdade do ditado “quem vê cara não vê coração”. Claro que sei que aparência não é nada. Mas, mesmo consciente, como não temer quando as motos, principalmente ocupadas por dois rapazes, ficam emparelhadas, ao seu lado, no sinal fechado que não abre nunca? Impossível não ficar apreensivo.

A tensão está por toda parte. Todo mundo tem um caso pra contar. Uma recomendação a fazer, uma rua ou um caminho a evitar. E como não se tem uma política contra a violência, nem se faz nada de efetivo contra a insegurança geral, não me espanta a mínima que o remédio mais consumido no país seja o Rivotril. Aliás, circula na internet um aviso ,no mínimo curioso, que diz: “Amor não é aquilo que te deixa em paz, feliz e calmo. O nome disso é Rivotril.”Será que existe remédio para o medo?

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