Rio - Um catador de latinhas. É a primeira sensação que me vem à cabeça quando procuro um assunto pra crônica. Nos últimos dias, amanhecer com a notícia da morte do gênio João Ubaldo Ribeiro trouxe um forte motivo pra estender a lauda. Por ele, caberiam parágrafos de admiração.Sua voz de barítono, invejava tanto quanto a obra literária. Outras virtudes: sorrir e beber uns destilados, doses que, na prática, ele afastou ainda em vida, camuflando o desejo num copo de guaraná e pedras de gelo. Graças aos parceiros Aldir Blanc e Chico Caruso, outros dois eternos, dividi alguns goles com esse insubstituível escritor brasileiro. Um desses brindes foi na homenagem que o Nem Muda Nem Sai de Cima fez ao Aldir, enredo dos carnavais tijucanos.
Encostamos no balcão de um bar próximo, ele pediu um uísque e, vício invasivo, foi convidado e aceitou tirar fotos de raras revelações. A dona, uma senhora amiga, mas criteriosa, me pergunta, lápis na orelha, como devia anotar o pedido:
— Quem paga?
— É o João Ubaldo! O imortal!
— ‘Aié’? Mora em que rua, que nunca o vi por aqui? Quer ‘dizêre’ que ele é imortal, vai ficar opendura pra sempre?
Julho é mês de aniversário de outro poeta suburbano, ouvidor dos becos da cidade, Luiz Carlos da Vila. Conjugo no presente. Suas músicas permanecem no escaninho de qualquer roteiro musical. Entre as relíquias espalhadas no quintal da Rua da Amizade, seu endereço na Vila da Penha, brandava uma esbelta calopsita de asas cinzentas, inúteis na gaiola branca de três poleiros. O pássaro cantava, no tom original, letra e música de um samba que o Luiz compôs na intenção de Candeia. A notícia se espalhou e câmeras do telejornal local angularam os filtros no plano americano da ave, esperando a performance final. A tarde caiu, junto aos viadutos cariocas e nem um pio da caturra. Depois do ‘corta!’, equipamento na garupa, o papagaio australiano solfejou três hinos da intentona comunista, sem contar o sambaenredo da Unidos de Vila Isabel ‘Valeu, Zumbi’.
São ausências que a vida acolhe.
Morre Ariano, desembocam os pequenos suassunas no riacho de esperança do sertão brasileiro.
No meio do vazio físico, a tragédia na Gávea.
Aqui, só me resta um silêncio ensurdecedor.