Por bferreira

Rio - Ninguém mais tem paciência. Tudo tem que ser pra ontem, ou anteontem. A pessoa já acorda apressada, atrasada, lendo e-mails, entrando no Facebook, postando suas dores e tristezas, dando opiniões definitivas, sempre com muita pressa, lendo apenas a primeira frase de um parágrafo, sem tempo nem paciência para seguir o texto até o final.

Corre-se muito para tudo, paradoxalmente corre-se para ficar parado no trânsito. Parado não. Porque no engarrafamento todo mundo, no táxi, no ônibus, no metrô, passa mensagem, checa as últimas notícias, revê amigos virtuais, quase reais. A cada sinal fechado, o taxista aproveita para responder mensagem, para checar seus aparelhos/aplicativos instalados no painel, já pensando ou aceitando a próxima corrida. O policial, dentro da viatura, com as portas abertas, teoricamente para estar atento ao seu redor, também “aproveita” o tempo parado para se comunicar. De cabeça baixa, se perde nas suas próprias mensagens, completamente desatento ao mundo e à violência que o cerca. É um tempo de gente que fica boa parte do dia de cabeça baixa, olhando pro celular, respondendo, escrevendo, rindo sozinho, esbarrando nas pessoas à sua frente, olhos grudados no aparelhinho que o faz sentir parte do mundo. É um tempo em que se pergunta ‘como vai, tudo bem?’ na certeza de que o outro vai responder que está tudo bem, mesmo porque não há muito tempo nem paciência para ouvir uma resposta contrária.

Outro dia, conversando com o cardiologista Cláudio Domênico, aproveitando que era dia nacional da saúde, me surpreendi, positivamente, com a importância que ele dá, não só às taxas de colesterol e outros elementos medidos no sangue, mas, principalmente, à atenção que a pessoa dá à própria saúde, aos sinais do corpo e as desatenções que praticamos conosco ao longo da vida. A falta de tempo é a desculpa oficial, que a gente dá para os outros e para a gente mesmo para negligenciar com o conjunto da obra que é o nosso corpo e a nossa alma. E não há tempo mesmo. O tempo, hoje em dia, passa mais rápido que antes ou a gente faz mais coisas do que fazia antes? É preciso abrir brechas. Inventar espaço. Todo mundo sabe. Mas como mudar isto? Mudar hábitos é a parte mais difícil e trabalhosa da vida. Se a gente deixar, o dia passa voando, a noite chega e a gente não fez nada para fazer a gente mesmo feliz. Não dedicou um único minuto a si mesmo. Não prestou a atenção devida nem aos seus próprios pensamentos, engolido que foi pelas coisas do mundo. Confesso que só tenho as dúvidas, as incertezas. Quisera eu ter as soluções e mudaria tantas coisas na minha própria vida que, com certeza, ela e eu seríamos outra. Ou outras. Se eu seria mais feliz? Não sei. Preciso de tempo para pensar. E você mudaria sua vida se tivesse ou se desse mais tempo? Seria mais feliz?

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