Por bferreira

Rio - Outro dia apresentei aos meus estudantes do Ensino Médio o filme ‘Muito Além do Peso’ que questiona a qualidade da alimentação das crianças e os efeitos da comunicação mercadológica dos produtos alimentícios voltados para elas, como as propagandas de refrigerantes, biscoitos, salgadinhos e uma porção de guloseimas. Sob a direção de Estela Renner, a obra (disponível, na íntegra, no You Tube) percorre várias realidades brasileiras mostrando como as famílias cuidam (ou não) da alimentação de seus filhos. De acordo com o longa, 33% das crianças brasileiras pesam mais do que deveriam e são vítimas de doenças provocadas pela obesidade. Os estudantes não conheciam o filme. Gostaram. Porém, o que mais me surpreendeu foi o fato de um deles ter comentado que ‘ninguém’ nunca tinha falado com ele, na escola, de forma tão direta e objetiva sobre o tema, sobre a alimentação. “Nem em sua casa?”, perguntei. “Não”, me respondeu.

O fato mexeu comigo. Levei a reflexão para outros professores que também ficaram surpresos. Sim, o tema já tinha sido abordado em algumas disciplinas, disseram alguns colegas da escola. Mas, talvez – eu pensei –, não de uma forma contundente e ligada diretamente ao dia a dia dos estudantes. Lançado há dois anos, o filme é atual, entrevista crianças, traz exemplos de publicidade, fala com especialistas, médicos e profissionais da publicidade. Não informa apenas, mas faz pensar, refletir. O que aconteceu com o aluno.

Veja como isso empodera e se ramifica. O simples assistir ao filme provocou no estudante uma pensata, uma reflexão direta sobre seu cotidiano, sobre o que ele come, consome. Isso fez com que ele fizesse outros links com o dia a dia da casa dele, analisando os hábitos alimentares de seu lar. O que o filme suscitou no estudante, com certeza, chegou à sua residência, fez parte de algum diálogo entre pais e filhos. Potencializou. Gerou memória e interesse. Reflexão que pode, inclusive, mudar para melhor algumas práticas que já tinham sido arraigadas como certas e um tanto inquestionáveis.

A partir desta realidade como seria mais fácil falar sobre biologia, corpo humano, indústria cultural, marketing, publicidade, culto ao corpo, estereótipos e tantos outros temas, digamos, conexos e transversais que, por si só, instigariam o interesse dos estudantes. Uma nova forma de ensino? Nada disso. Uma forma de ensino simples, centrada na realidade dos estudantes, nos desafios do nosso tempo, que fazem sentido na vida e para a vida. Uma metodologia de ensino já há muito tempo defendida por vários e vários educadores, mas que parece ser esquecida ou pouco revisitada.

Marcus Tavares é professor e jornalista especializado em Educação e Mídia

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