Karla Rondon Prado: Honestidade

É quando você faz algo totalmente verdadeiro, que se orgulharia de fazer na frente da pessoa pelas costas

Por O Dia

Rio - Ele dormiu e eu pensei: existe honestidade pela metade? É possível ser 100% honesto? Concluí que honestidade inteira — se é que existe honestidade com alguma corrupção, mesmo que imperceptível — é quando você faz algo totalmente verdadeiro e sem pequenas exceções, que se orgulharia de fazer na frente da pessoa pelas costas, algo que não precisasse disfarçar nada, justificar ou argumentar.

Em geral, atitudes que tomaria diante de qualquer um indefeso, como bebês ou idosos, ou alguém com uma doença degenerativa, ou alguma limitação física ou mental, respeitando o fato de que aquela pessoa não tomará conhecimento sobre a forma como a coisa será feita. Mas que ela será feita a contento, como se fosse por ela mesma.

Mesmo em coisas simples, como um suquinho para um neném. Provei a pera, estava dura e nada doce, o caldo que escorre normalmente de quando está madura... nem sinal. Ah, posso bater e misturar laranja lima, ou água de coco... posso até botar açúcar, ou mel... não, não acho que a pera esteja boa, então não farei isso. Ele não vai saber, mas eu sei. Preciso ser honesta.

Mais ou menos como um testamento. Não precisaria testamento em cartório, essa burocracia toda, se a vontade do morto fosse respeitada. Eu deixaria escrito: isso é pra você, aquilo é para ele, essa outra coisa, para ela. Tudo que eu tenho é 45% seu, 45% dele, 10% daquele. Não seria necessário seguro de vida, leis, nem advogados que garantissem o básico: a vontade do dono. Eu sou o dono, eu quero que seja assim.

Por favor, sejam honestos e mantenham a minha vontade. Eu não vou estar aqui para conferir (quem sabe se não?), mas vocês estarão e sabem que eu quero assim. Não me venham me trair agora nessa hora tão difícil... Sejam honestos.

Eu estava no bar e você não. Chegou alguém que se interessou por mim. É bonito, interessante, inteligente, agradável. Como eu reajo? Simples. Estou com você porque quero estar. Ninguém é obrigado a ficar com outra pessoa. Tudo, fora o desejo sincero de cada um, é apenas convenção, é subjetivo. Sinto lealdade. Agiria como se tivesse uma câmera de segurança diretamente no seu olhar. Pode ver, assim me orgulho, estou sendo verdadeira. Não por controle, mas por natureza. Mas isso me agride? Então não estou sendo honesta comigo, melhor eu ser. Mas continuando com a ideia da câmera.

Loucura? Rigidez? Obediência incondicional a uma crença? Caretice? É sempre possível mentir ou trapacear. Então ser honesto talvez seja uma característica natural. Estudos científicos comprovam. Ou se é, ou não.

E-mail: karlaprado@odia.com.br

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