Editorial: Rocinha, ‘pacificação’ para esquecer de todo

O drama do pedreiro Amarildo, espancado e morto num julgamento sumário, sintetiza o mal que pairava sobre a comunidade, travestido de força de segurança

Por O Dia

Rio - Indenizar nove moradores da Rocinha pelos atos abusivos de agentes da UPP denunciados pelo Ministério Público, como O DIA mostrou ontem, é o mínimo que o Estado pode fazer. No inquérito do MP, sobressaem barbaridades que jamais deveriam constar do repertório de uma Polícia Militar — menos ainda de uma força gestada com o intuito de resgatar a cidadania e garantir a paz. Mais que reparar as vítimas, o governo precisa cuidar que aqueles desvios jamais voltem a acontecer.

O drama do pedreiro Amarildo, espancado e morto num julgamento sumário, sintetiza o mal que pairava sobre a comunidade, travestido de força de segurança. Espanta tomar-se conhecimento de casos semelhantes. Nos relatos do MP, ameaças e espancamentos eram rotina. Nem grávidas eram poupadas da sanha dos maus militares.

A ação civil pede a perda da função pública de 31 policiais e a suspensão dos direitos políticos deles por até cinco anos. A cúpula da Segurança reiteradamente afirmou que os envolvidos já foram afastados e responderão pelos seus atos. Mas pode se considerar justa e pacificadora uma polícia que permite chegar a esse estado de degradação da vida humana, no cúmulo do desrespeito? A UPP não pode ser fonte de medo. Não é substituindo mecanismos de opressão e recriando ferramentas de tortura que se garantirá a paz nas comunidades.