Fernando Molica: Políticos, drogas e virgindade

O ideal seria que ninguém buscasse conforto ou prazer em substâncias químicas

Por O Dia

Rio - Dos cinco candidatos ao governo presentes ao debate da Band, apenas um — aquele, que, segundo as pesquisas, não tem chance de ir para o segundo turno — defendeu a legalização da maconha. Os outros deram ao assunto o tratamento de dogma religioso, repetiram o mantra da proibição, um deles chegou a associar o uso da erva por operários ao fechamento de uma fábrica de aviões.

Divergências são saudáveis e necessárias, o tema está longe de ser consensual, gera debates acirrados no mundo inteiro. Mas seria razoável esperar que políticos relativamente jovens — o mais velho dos cinco tem 59 anos — tivessem posições mais elaboradas e menos preconceituosas. É impossível que eles, de alguma forma, não tenham tido contato direto com uso de drogas.

Eles podem até nunca tê-las experimentado, mas seria difícil acreditar que jamais viram amigos fumando um cigarro de maconha em festas ou numa viagem de fim de semana. Deveriam, no mínimo, explicar por que condenam a legalização e, ao mesmo tempo, não se engajam na luta pela proibição das bebidas alcoólicas.

Droga permitida, anunciada na TV, o álcool é, de longe, entre as substâncias químicas que geram alteração de comportamento, a que mais problemas causa entre nós. Nem por isso defende-se sua interdição: os Estados Unidos chegaram a implantar a medida, que serviu apenas para estimular o contrabando, engordar e consolidar a máfia.

O ideal seria que ninguém buscasse conforto ou prazer em substâncias químicas, mas a história mostra que não é assim que caminha — nem sempre em linha reta — a humanidade. Praticamente todos os grupamentos humanos inventaram ou consumiram algum tipo de droga que, bebida, inalada, fumada ou injetada, produz mudanças de consciência.

Estas mesmas substâncias são capazes de provocar dependência e tragédias pessoais ou sociais, daí a necessidade de discuti-las. Afinal, a proibição não foi capaz de inibir o consumo e ainda acentuou problemas como corrupção policial e violência.

Em 2001, Portugal deixou de prender usuários de qualquer droga (a venda das substâncias continua proibida) e intensificou o tratamento de dependentes. Especialistas divergem sobre a diminuição do consumo, mas ninguém fala em explosão no número de usuários.

A experiência portuguesa poderia ser o ponto de partida para um debate sério por aqui. O que não dá é ver homens públicos tratando do tema como pais que, no passado, discorriam sobre a impossibilidade de suas filhas terem relações sexuais antes do casamento.

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