Por felipe.martins

Rio - Ir ao museu atualmente é a dessacralização do que havia de ritualístico: nenhum silêncio ou gente observando na penumbra! Ir ver Dali no CCBB é uma festa moderna, onde selfies e barulhos de milhões de disparos de celulares, convivem com as obras do grande maluco-beleza. “Nós também somos celebridades”, comentam as hordas de estudantes e passantes diante das telas. O ao vivo não importa, todos levantam as maquininhas e disparam, para guardar aquela sensação na gaveta, não na memória. Olharão em casa? A resolução eletrônica é mais detalhada que a retina humana? Como observar as pinceladas do grande mestre pelo diafragma da câmera?

Nisso a garota diz para mim: “Você é aquele?” Sussuro que sou, sim, e ela pede para eu gravar um depoimento para a gincana do colégio. Continuo falando baixinho e digo para me aguardarem na saída quando farei com o maior prazer, mas que ali não é um lugar apropriado. Abandonando tudo o que me rodeia, fico horas lendo, olhando minuciosamente, emocionadíssimo com o discurso libertário diante de mim. Mundo dissolvendo, seres alados, paisagens solitárias com sol abrasante, os azuis dos céus, tudo me impressiona e toca profundamente. Quantas vezes em sonhos já pisei aquelas areias amareladas? Comovido com o cérebro capaz de produzir tal impacto na humanidade, parto de volta ao mundo real. No grande hall o homem atrás de mim dispara: “Meu Deus, como você é sério!

Sorria, você não é carnavalesco? Você acabou de ver Dali, você deveria estar feliz...”. Com minha trovoada voz, rebato: “Eu nunca vou fazer o que vocês querem; eu só faço o que eu quero”. E ele retrucou: “Ihhhhh”. E eu fui abrindo meus braços e segurando as meninas que queriam meu depoimento. “Podemos gravar?”. E eu respondi: “Estou pronto”. Abro o gigantesco sorriso para o celular e digo o texto que elas me recomendaram: “Oi, galera do Alva Tahan, aqui é Milton, sou do Carnaval e quero mandar um grande abraço”. Só que eu inventei o final: “E não esqueçam: estudar é a grande saída para um futuro melhor”.

Elas agradeceram e eu fiquei de novo ali, sozinho, sem o homem que me recria gargalhante 24 horas por dia; sem elas que desejam ganhar a gincana; sem Dali; sem nada... Sobre o mármore branco me procurando, deixo o surreal mundo me tocar, pois viver é surrealíssimo, a realidade é louca, rápida e avassaladora.

Se o rosto de Mae West vira apartamento na última instalação, o rosto de Milton Cunha vira um desconhecido diante das personas que sou obrigado a encarnar ao longo de meus dias.

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