Por bferreira

Rio - A caminho do Leblon, passo por Botafogo, e presto atenção ao cartaz enorme que anuncia: “Canecão, patrimônio da humanidade”. A placa lá está, reforçando o óbvio e mostrando o descaso da cidade para sua maior e mais significativa casa de espetáculos.

O Canecão foi fechado em maio de 2010. Não vou entrar no mérito da questão que levou ao fechamento, nem vou defender os empresários que o administravam. Pode até ser que o aluguel da casa, que pertence ao Estado, fosse baixo, que os impostos estivessem atrasados, que isto ou aquilo. Mas será que está certo acabar com um marco da história da cidade e da música popular brasileira para nada? Por que é que a gente tem tão pouco apreço pela nossa memória, pelas nossas coisas? Palco de grandes e inesquecíveis espetáculos, o Canecão não existe mais, não lança grandes nomes da nossa MPB, não é mais palco de espetáculos geniais como “Brasileiro, Profissão Esperança” ou “Doces Bárbaros”. Nem nunca mais será.

A quem interessa o Canecão fechado? Por que ninguém reclama? Porque, por aqui, tudo fica por isto mesmo, porque por aqui, alguém sempre vai dizer “não era um lugar democrático, não era um lugar de acesso livre”. Realmente não era. Tinha lá seu custo, era sonho de consumo ir a um show no Canecão. Era sonho de cantores e compositores cantar no palco do Canecão. Então, devo concluir que nestes tempos de ressentimento crescente, o que não atende a todos deve ser fechado e não atender a ninguém? Isto é mais democrático?

Estas questões me tomam o pensamento quando passo pelo Canecão, a caminho do Leblon, onde fui ver Fernanda Montenegro fazer uma leitura de trechos do livro ‘Boa Noite a Todos’ , de Edney Silvestre. Maggie, a personagem do livro, está perdendo suas lembranças, se esquecendo da sua vida vivida. O texto é muito sedutor, Edney escreve muito bem, Fernanda faz da leitura um lançamento inesquecível e as histórias dela, Maggie, se misturam com as nossas próprias histórias, da plateia de amigos da vida inteira e outros nem tão antigos assim que lá se reuniram para um momento raro.

Como é bom relembrar, reviver, reencontrar. E como isto fica mais forte nestes tempos em que o tempo parece passar mais rápido, atropelando a vida e a população está mais envelhecida, o alemão (o tal do Alzheimer) avança a passos acelerados, ameaçando a nossa memória, sem a medicina, tão avançada, encontrar uma solução para a questão. O que fazer para não esquecer? Os neurologistas recomendam ler mais, fazer palavras cruzadas, aprender uma novo ofício ou um novo idioma para exercitar os neurônios e, com isto, tentar evitar o esquecimento. Nem eles estão certos de que funciona, mas, pelo sim ou pelo não, é melhor tentar. Porque esquecer deve ser terrível. Será que é pior que o abandono?

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