Por felipe.martins

Rio -  Não tenho a menor paciência para o oba-oba em torno de rainhas de bateria de escolas de samba. As moças são lindas, espetaculares, mas, muitas vezes, tomam o lugar dos donos da festa, aquela gente que criou e a cada ano reinventa o maior de todos os espetáculos. Rainhas não contam pontos, e a presença delas atrai fotógrafos e cinegrafistas que volta e meia atrapalham a evolução dos desfiles.

Mas, por conta de texto e vídeo postados ontem pelo amigo Fábio Fabato, dei uma olhada na cerimônia de, vá lá, coroação da Claudia Leitte como rainha de bateria da Mocidade. A escolha da gonçalense e estrela do axé para o posto foi apenas uma jogada com o objetivo de jogar alguns holofotes a mais na direção da escola de Padre Miguel, que, nos últimos anos, andou até ameaçada de rebaixamento.

O vídeo mostra que as belas pernas da cantora ainda não decifraram o segredo dos passos do samba. A falta de intimidade com o ritmo fez com que Claudia tirasse as sandálias para tentar sambar, gesto que contraria o repertório das passistas — jogador profissional não entra em campo sem chuteiras.

Mas o samba tem feitiço. Discriminado e perseguido em suas origens, aprendeu a não temer o que vinha de fora, tratou de incorporar e de reciclar as influências externas. O desfile das escolas é uma consequência óbvia desta capacidade de reinvenção. Isto, porém, não implica descarte de rituais que devem ser cumpridos pelos recém-chegados. No palco da quadra da Mocidade, Claudia Leitte reverenciou o passado da escola ao usar, como passaporte, o samba ‘Cartão de identidade’. Ao dar boa noite aos sambistas e compositores e se dizer natural de Padre Miguel, ela bateu cabeça para os ancestrais, para os que vieram antes, que abriram os caminhos para os que chegariam depois.

Este samba — contam os livros ‘As três irmãs’, de Fabato, e ‘Estrela que me faz sonhar’, de Bárbara Pereira — nasceu de um incidente ocorrido na década de 1970, quando a Mociedade ensaiava sua presença entre as grandes campeãs. O compositor Jorge Carioca saíra da quadra para tomar umas cervejas e, na volta, se viu barrado por um segurança padrão Castor de Andrade. Obrigado a dizer quem era, sacou sua carteira da ala dos compositores e cantarolou: “Mostrando a minha identidade /Eu posso provar a verdade a essa gente /Como eu sou da Mocidade Independente”. Com a parceria de Djalma Crill, o improviso viraria hino e manifesto. Ao cantá-lo em sua cerimônia de iniciação, Claudia conquistou uma espécie de cidadania provisória — que trate de honrá-la.

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