Por bferreira

Rio - Estou no avião.

Um grupo de jovens divide os assentos à minha frente. A animada conversa gira em torno de estética, silicones, fitness e outros acepipes fisiculturistas.

Lembrei de um fato vivido com o grande artista Ciro Monteiro, o conhecido Formigão, famoso rei da caixinha de fósforos. Nosso cantor, mesmo escondido num canto do bar da esquina e reconhecido por um admirador, estilo íntimo com qualquer celebridade.

— Grande Ciro! Bebendo água? Água enferruja!

— Meu caro! Só enferruja pra quem tem saúde de ferro!

A bordo, os jovens riem com todos os dentes originais. Os de leite ficaram no cordão da infância. Falam pelos cotovelos lisos. Têm os cabelos pintados, sim, mas de azul: araras em vez de graúnas.

A minha recordação respira entre poros de preconceito. Carecas são chamados de “franja”, “pouca telha”, sinais avançados de uma idade com extensor no cinto de segurança — passou do limite. No corredor, um corte à moda das chuteiras mortais, moicano, com as orelhas expostas ao golpe de ar, tem os cantos depilados por opção. É o tempo grisalhos na narina, ouvidos surdos na barreira da penugem.

A barra de cereal do dia, refeição básica de qualquer voo doméstico, é goiabinha. Três unidades. Observo na embalagem que são incontáveis calorias e penso na glicose, as taxas que escondo do meu médico antes da sentença final. Na fileira mordem os doces, indiferentes ao açúcar, como trato meus comprimidos. É cedo pra preocupações. Eles são naturais, baladas e boladas de saúde. É a pele da juventude que encardi com tragos de Hollywood, numa época em que, vinte mil pés acima, a fumaça nublava a cabine de passageiros.

Eu aposto nesse futuro. Vício da vida.

A turbulência desvia a minha atenção.

Bandejas recolhidas, cintura afivelada, a aeronave se aproxima para o pouso autorizado.

Percebo, na janela oval, precárias moradias, artérias de viadutos enfartados de carros em comboio, o sol queimando o zinco das fábricas, tudo em exageros urbanos. Mas um vazio me chama a atenção:sumiram os campos de futebol, as várzeas de domingo, grama seca e alta atrás da rua abandonada do bairro.

É o cotidiano visto de cima.

Você pode gostar