Por adriano.araujo

Rio - Triste pátria a nossa, contaminada pela corrupção às vésperas de mais uma eleição. Rostos e promessas dos candidatos desanimam o cidadão comum, esgotado de esperar uma sociedade organizada, funcional e saudável. O que funciona aqui, com excelência dos nossos políticos e governantes, é disposição para se corromper. Alguns acabam descobertos e, com cara de ingênuos, dizem a famosa frase: “Mas eu não sabia de nada!” Ou melhor: “Tudo será apurado, e os responsáveis, devidamente punidos”. Quem acredita?

Mas que tipo de punição é essa? Assistimos a pessoas presas com o dinheiro roubado e guardado que esperam cumprir a suposta pena para depois usufruir do produto, que não se chama mais roubo e, sim, desvio de verba. Novas nomenclaturas estão criadas em decorrência da proliferação e ‘regulamentação do roubo’. O esquema funciona assim: cada partido vai sitiar uma determinada estatal. Nessa, é colocado um presidente ou diretor com a finalidade de roubar ou desviar verba através de operações mirabolantes para ser revertidas para o bolso da ‘autoridade’ e, claro, para o que executa a operação.

O preço? O risco de ser descoberto. A finalidade: encobrir o mandatário, ser preso e odiado no lugar daquele que não será chamado de ladrão e que dirá publicamente que foi traído. Claro que o jogo é pré-combinado, e as regras, bem delimitadas. Uma vez paga a pena, se for o caso — às vezes até é —, depois de tudo, vai desfrutar à vontade o dinheiro roubado.

Os salários poupudos são insuficientes para o padrão de vida das mulheres e filhos gastadores, consumistas impiedosos com o dinheiro público roubado. Falam em um milhão como se fossem dez reais. A propósito, hoje se fala em bilhão, já notaram? Já foi o tempo em que milionário era o que tinha um milhão! E lá se vão nossos bilionários da nação gastar a rodo, quase que se vendo livre do dinheiro roubado. Afinal, tem sempre mais! Culpa? Vergonha? Creio que não, esbanjamento irresponsável transmitido de pai para filho ao longo dos anos de neopotismos reinantes. Isso é como dinheiro ganho em jogo, não foi fruto de trabalho, é gasto rápido.

E segue a campanha eleitoral em horário nobre, alguns nem tanto. Caras ávidas por cargos públicos gozam com as necessidades do povo brasileiro em promessas tentadoras. Querem entrar no Estado a qualquer custo para se tornar engrenagem necessária dessa máquina de fazer dinheiro fácil, à custa do empobrecimento do povo. Mas isso não importa, apenas a promessa de campanha, que promete Saúde e Educação, itens jamais cumpridos.

São velhas repetições de campanhas do passado, dos mesmos candidatos de hoje e dos novos, que nunca chegarão a ser efetivadas. Não podem ser, são dispositivos de ação repetidamente usados e não cumpridos pelos mesmos que aí estão a prometer mais uma vez na busca de mais um mandato para fazer dinheiro. Me perdoem os honestos, mas um tomate podre estraga a caixa. Cuidado!

É mandato de quatro anos, que garante aposentadoria integral, mais o acúmulo de bens em contrapartida a quem trabalha anos e se aposenta com um mínimo. Eles, com tudo! Quem não quer? “Quem quer dinheiro?”, pergunta Silvio Santos no seu programa de auditório, responde a plateia, e eles na tela da TV, atrás de mais grana.

E nós? Pobres de nós, somos forçados a escolher dentro desse cardápio indigesto o menos amargo, o menos pior, o menos corrupto. As eleições aqui criaram esse novo dispositivo de ação. No íntimo, desejamos um país melhor, um desejo utópico. Com muito sofrimento, admitimos que sair da corrupção, que se alastrou como epidemia, é como a cura do câncer: não foi descoberta.

?Fernando Scarpa é psicanalista

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