Por bferreira

Rio - Em cadeira de rodas. Aliás, essa parte — a da cadeira de rodas — foi uma das mais divertidas da viagem. Eu, por conta da minha avançada idade, e Célia, porque avariara o joelho num tombo em Istambul; poupávamos energia empurrados numa velocidade estonteante naqueles imensos aeroportos por hindus em Londres e africanos em Roma e Madri.

A ideia, ao que parece, era atropelar hordas de japoneses, e aí sempre me lembrava do Millôr. Dizia que nunca ninguém viu um japonês; eles só andam em bandos. Todos com máquinas fotográficas. E também — sempre ele — o Guru do Méier ensinava que, se Deus existisse, já teria sido fotografado por um japonês. Deve haver incentivos e prêmios para os que viajam, se ficassem todos o tempo todo no Japão o país afundaria com o peso. Estão em toda parte.

Eles e as islâmicas de burca: pareciam um bando de urubus no saguão do hotel que ficamos em Londres. Pois é, estive em Londres. De lá fomos, para Roma e Madri, Célia, eu e um casal amigo, espremidos num carro alugado, com paradas em Córdoba, Sevilha e Granada. Foi uma tortura para um cara proibido de ingerir qualquer bebida alcoólica atravessar aqueles imensos vinhedos. A essa altura da crônica fico devendo uma explicação a quem está me lendo. Pois é, passei um mês fora. Mas deixei no jornal desenhos e crônicas.

Você não deve ter desconfiado porque nada mudou na esculhambação do país. Já os vizinhos, pela cara de surpresa quando voltei, devem ter pensado que eu tinha morrido. Então, por que viajei, já que estou proibido de beber? Por masoquismo? Não. Célia tirou férias e comprou o pacote na agência de turismo sem me dar aviso prévio. “Se não quiser ir, não tem problema”, disse. “Jogo no lixo e perdemos o dinheiro.” Mas manteve a Lei Seca durante a viagem. De bebida alcoólica, só me deixou beber uma Guinness no Scarfe’s Bar, em Londres. O melhor boteco que conheci na vida, decorado com desenhos de Gerald Scarfe, o maior cartunista vivo. Foi o ponto alto da viagem. Infelizmente, o Scarfe tinha saído de lá pouco antes da nossa chegada.

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