Por thiago.antunes

Rio - Se nossos partidos políticos fossem coerentes, expulsariam todo político ficha-suja e comprovadamente corrupto. Não aceitariam financiamento de campanhas eleitorais por pessoas jurídicas, como empresas e bancos.

Se fossem coerentes, os partidos obrigariam seus candidatos, uma vez eleitos, a cumprir o que prometeram, sob ameaça de expulsão. E suspenderiam a filiação dos suspeitos de corrupção até dada a palavra final pela Justiça. Se os partidos fossem coerentes, jamais admitiriam que candidatos flagrados em corrupção ou vetados pela Justiça Eleitoral indicassem a mulher ou o filho para ocupar seu lugar na disputa.

Se fossem coerentes, os partidos tornariam transparente sua contabilidade e revelariam quem financia seus candidatos e com que valor. Se os partidos fossem coerentes, fariam formação política de seus militantes e investigariam a vida pregressa de quem pretende se filiar a eles. 

Se fossem coerentes, os partidos não permitiriam a projeção de caciques nem que eles se perpetuassem na sua direção, como ditadores que jamais cedem lugar a novos filiados. Se os partidos fossem coerentes, não fariam alianças espúrias nem nomeariam para cargos públicos políticos e filiados que são obviamente safados, corruptos e oportunistas.

Se fossem coerentes, os partidos teriam militantes voluntários em suas campanhas, sem necessidade de pagar a pessoas desocupadas para distribuir propaganda eleitoral nas ruas. Se os partidos fossem coerentes, divulgariam mais seus programas de governo, e não candidatos de última hora, que neles ingressam para pegar carona motivados apenas por ambição de poder.

Se fossem coerentes, os partidos implantariam núcleos de base em periferias, favelas e bairros populares, fora do período eleitoral. Se os partidos fossem coerentes, jamais aceitariam a filiação de quem não defende os direitos humanos proclamados pela Carta da ONU em 1948.

Fossem coerentes, os partidos não seriam como geleia que se adapta ao pote de poder no qual são inseridos, e proclamariam seus princípios e objetivos. Se os partidos fossem coerentes, antecipariam a Reforma Política dentro de sua estrutura interna e jamais se deixariam mercantilizar como legendas de aluguel.  Se os partidos políticos fossem coerentes, teríamos no Brasil uma verdadeira e saudável democracia.

Frei Betto é autor de ‘Reinventar a vida’ (Vozes)

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