Por bferreira

Rio - Fazem-se abortos às centenas todos os dias, mas desvia-se o olhar para as consequências desses procedimentos ilegais, mesmo diante de tragédias como a de Jandira Magdalena e Elizângela. Ambas acabaram mortas no último mês depois de complicações em ‘clínicas’ mais rudimentares que abatedouros, tamanhas a irresponsabilidade e a falta de consideração de quem as comandava. Um tabu parece cegar os postulantes a cargos na eleição do domingo que vem, pois deles não se ouviu palavra sobre o tema. O debate não é só necessário: é vital.

O país ainda não tem maturidade para discutir o aborto. A questão, decerto, não é simples. Lida com a vida humana em seus primeiros momentos, o que leva a um debate multidisciplinar que transcende a lógica e as leis e mergulha fundo em preceitos religiosos. Esta ‘tradição’, porém, engessa os diálogos e inutiliza argumentos, como se falar de aborto como tópico relevante de saúde pública antecipasse o Fim dos Dias.

O doutrinamento, no entanto, faz prosperar o submundo a que recorrem Jandiras e Elizângelas, que, por motivos vários — e a despeito de julgamentos éticos e morais —, pagam fortunas para interromper a gestação. Confiam a vida em nômades que, para escapar da polícia, montam arremedos de clínicas em lugares insalubres e descartam grávidas ao menor sinal de revés. Jandira foi mutilada e carbonizada. Elizângela, largada exsudada na rua. E há ainda as que apelam a medicamentos supostamente abortivos ou a métodos folclóricos, ambos altamente letais. Todas são privações a que não se submetem mulheres com recursos que podem terminar a gravidez em centros mais discretos.

Até que se cristalize uma opinião sobre o assunto, não é possível existir esse subterrâneo tão extenso, tão perigoso e tão lucrativo para quem o explora. Os próprios algozes de Jandira são reincidentes, prova de que a legislação e a repressão são frouxas. Se o Brasil decidir proibir o aborto, como apontou pesquisa Ibope no início do mês — 79% sustentam essa posição —, que se aprimorem os processos para acabar de vez com essa monstruosidade. E que os candidatos manifestem suas opiniões, pois essa cegueira não acabará com a mortandade.

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