Por bferreira

Rio - Um exemplo que tenho dos meus pais é que nunca os vi discutindo na minha frente. Estavam sempre demonstrando amor um pelo outro e equilibravam-se numa parceria. Se tinham suas diferenças, isso não era trazido a público, o que facilitava bastante a blindagem do casal.

Acredito que esse comportamento tenha sido fundamental na formação do meu caráter, autoestima e no modo como ajo nos relacionamentos. Obviamente que, no início, não importaram os exemplos. Como toda adolescente, tive lá meus ímpetos infantis, dei ataques de ciúmes com namorados e amigos. Errei bastante, a ponto de minha mãe parar tudo um dia e me abordar no corredor de casa: “Minha filha, eu não estou te reconhecendo”. Levei um susto, pois a frase foi dita com uma perplexidade chocante.

Com a experiência, vamos mudando, melhorando, vamos nos aperfeiçoando. Mas uma coisa não muda: a base da nossa educação, os exemplos que tivemos na infância, em família, dentro de casa ou dos grupos com os quais convivemos. São aprendizados que vão direto para as nossas raízes. Se quer educar, comece com o seu próprio exemplo. Quem ainda não ouviu essa frase? Seu filho não está ouvindo? Se ele não tem algum problema de audição, do que adianta gritar? Comece falando baixo e claramente para se fazer ouvido. Isso vale para relacionamentos. Assim, seu comportamento vai sendo imitado, assimilado, apesar dos instintos de cada um, que, em dado momento, afloram.

Admiro as pessoas discretas. Estão em um estado elevado. Impressiono-me com a capacidade de alguns de não darem informações sobre si mesmos e de como isso provavelmente é pensado. Claro que há os naturalmente discretos, mas que a discrição também pode ser exercitada, pode. Ao pensar nisso, lembrei de uma das minhas primeiras colunas, sobre o silêncio, na qual eu dizia que, não falando nada, deixamos o outro sem memória. Para que dizer certas coisas? Não dizer limita a existência delas, que tornam-se restritas ao seu pensamento. Nem tudo precisa ser falado.

Num almoço em família, uma amiga teve que engolir um sapo. Todos nós sentimos o tamanho dele na garganta, pois ficou aquele silêncio que enforca. Curiosos, todos à mesa estavam loucos para perguntar qual tinha sido o problema e ela, com maestria, reagiu levemente, ao ser encarada pela mesa lotada: “Depois eu falo. Vamos comer que está uma delícia”. E não mais falou. E ninguém perguntou. Fui embora pensando nesse exemplo e no quanto pode ser bom, às vezes, a gente se preservar.

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