Moacyr Luz: Os fenômenos

Os fenômenos esperados perderam os dentes na boca de urna, cometas de rabo curto, fogo de palha úmida

Por O Dia

Rio - Eu morava num quarto e sala, no Méier, quando o Uri Geller entortou o Brasil feito um garfo descabelado do seu faqueiro. Meu avô, do outro lado da cidade, Copacabana, hipnotizado pelo tubo da televisão, saiu dançando a hula havaiana pelo corredor do edifício, enquanto vovó incorporava, pra espanto da empregada também vesga com o fato, cambinda de Guiné.
Os relógios pararam.

Dizem que na Central do Brasil o ponteiro dos minutos disparou em rotações de Fórmula 1. Tudo com um simples estalo do célebre paranormal. Algum visionário gritou: “Fenômeno!” E o gaiato saiu pelo Mato Grosso entortando pantanais e paus de araras nos sertões desse país de futuro enviesado. Independente de julgar as consequências, Uri Geller responde a processos em todas as varas da justiça continental, inclusive desmascarado pelo encapuzado Mister M.

Certa feita, em Campo Grande ou Santíssimo, sei lá, bem antes de nomeado Zona Oeste, a Avenida Brasil em mão dupla, uma santa de madeira espargia sangue pelos olhos. A Romaria de fiéis chegava ao Jabour: cegos à luz, calçadas aos mancos de esperança e muletas gastas. Uma vizinha com dor na junta fez um polichinelo diante da imagem e saiu gritando: “Fenômeno!” Daí, veio um Doutor Quevedo Da Vida, barba de profeta, e descobre uma goteira sobre o santuário. A santa, esculpida num tronco de imbuia rajada, inchava dessa água até purgar pelos olhos a tintura final. Outros olhos verteram, mas a lágrima milagrosa, jamais.
Desviando do programa ‘O Povo na TV’, audiência máxima e Lemgruber de preto, surge um ídolo aos pés da Linha Vermelha, São Cristóvão, padroeiro dos navegantes de estrada: Ronaldo, o menino de Bento Ribeiro.

O artilheiro, cabelo de Cascão, que nos deu a Copa de 2002, premiado com as Bolas de ouro, prata e bronze, nos primeiros anos de carreira, ao driblar meio time do Compostela, seguro pela camisa, rasteiras e outros recursos desesperados num gol inesquecível, foi retribuído aos gritos da torcida: “Fenômeno!”. Depois, escândalos abafados e um dieta ‘reality show’, a vida se tornou mais humana.

Meu samba fala dos botequins, de amores possíveis, mas percebo que os fenômenos esperados perderam os dentes na boca de urna, cometas de rabo curto, fogo de palha úmida.

Como diria o meu querido tijucano Xanduca:

— É igual ao leão da Metro. Dois urros, o resto é fita!


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