Wilson Diniz: No Rio, vale tudo?

A aliança de Garotinho e Crivella é fruto do desencanto do eleitorado dos votos depositados no primeiro turno

Por O Dia

Rio - Em março de 1931, foi erguida no alto de Santa Teresa a imagem do Cristo Redentor, esculpida pelo artista franco-polonês Paul Landowski, sob protestos radicais dos evangélicos batistas. A imagem ultrapassou fronteiras, tornando-se símbolo da humanidade, como o maior monumento católico da América Latina. De braços abertos no Corcovado, transcende 83 anos de ciclos da política no Brasil desde a época dos governos de Vargas. Chega aos dias de hoje testemunhando o episódio decadente da aliança — de cunho religioso — entre Crivella e Garotinho, chancelada pelo ex-líder estudantil Lindberg. Essa é uma das opções dos eleitores fluminenses no dia 26 de outubro. Para traçar o o futuro do estado, terão de decidir entre o candidato ancorado em princípios messiânico-populistas de doutrinas religiosas e o de pautas de partidos políticos.

A aliança raivosa e primitiva entre estes atores políticos, na forma como almejam vencer as eleições, assemelha-se à teoria do antropólogo holandês Frans B. M. de Waal. Ele estudou como os chimpanzés lutam pelo poder numa grande comunidade, fazendo acordos de conspiração para derrubar quem está no comando do bando. Segundo o antropólogo, os “símios machos são paranoicos, fazem alianças transitórias e coalizões táticas, se aliando a outro chimpanzé para destituir o líder do grupo. Depois que alcançam o poder, os acordos são rompidos, e outras coalizões são formadas em lutas permanentes para derrubar o novo líder”. No momento, o pacto político entre Garotinho e Crivella tem poucas diferenças comportamentais e filosóficas se comparado à teoria de De Wall.

A aliança de Garotinho e Crivella é fruto do desencanto do eleitorado dos votos depositados no primeiro turno. Os dois candidatos foram rejeitados pela maioria; juntos, sofreram derrota fragorosa para nulos, brancos e abstenções de 2,4 milhões de eleitores — fora os índices de rejeição. Portanto, sem maioria no sufrágio do resultado das urnas para governar o povo do estado.

Em São Paulo, nas eleições para prefeito em 2012, o candidato Celso Russomanno, da Igreja Universal — e representante do Bispo Macedo —, despencou nas pesquisas nas duas últimas semanas e perdeu para o petista ateu e filósofo Fernando Haddad. Lá na Pauliceia, o eleitorado entendeu que a disputa era entre católicos e evangélicos, e pela guerra mercadológica de milhões de reais das verbas de publicidade da prefeitura entre Globo e Record.

Aqui no Rio, o quadro não é tão diferente. Vale tudo para os discípulos de Garotinho e do Bispo Crivella. Só não vale homem com homem e mulher com mulher, o resto vale? E aí, Lindberg, ex-cara-pintada?

Wilson Diniz é economista e analista político

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