Por felipe.martins

Rio - Norberto Bobbio (1909-2004), filósofo e pensador italiano, no livro ‘Elogio da serenidade’ (tradução da expressão ‘il mitte agnello’, ou ‘dócil cordeiro’, e ‘calmo e paciente’) — um de seus ensaios concisos —, discorre sobre a não violência na política. E cita Mateus (5,5): “Bem-aventurados os mansos, porque deles será a terra.” Este lema poderia ter sido fonte de inspiração dos dois candidatos evangélicos, Garotinho e Crivella, na disputa ao governo do Estado do Rio.

Desprovida de formação intelectual dentro dos conceitos de uma ética laica e alimentada por discursos raivosos, a dupla propagou as várias formas do ‘mal absoluto’ com fundo de vingança violenta. Os dois ainda propuseram plataformas de campanha para chegar ao poder utilizando técnicas de combate ao adversário baseadas nos escritos dos manuais de tratados da guerra de Sun Tzu e de Clausewitz.
Garotinho, com o vasto repertório de sua artilharia, girou sua metralhadora verbal incansavelmente em todos os inimigos, tentando chegar ao segundo turno. Achava que daria o golpe de misericórdia no candidato Pezão por ele não ter técnicas de retórica de radialista para os duelos nos debates da propaganda eleitoral.

Chamou Crivella de “fariseu” e de “rei Saul”, protagonizando guerra declarada ao ‘irmão’ representante da Igreja Universal, sobrinho do bispo Macedo, dono da TV Record — o que rachou o segmento dos fiéis do filão evangélico. Isolou-se, convencido de que seria escolhido pela massa destes eleitores que são opositores à corrente de Macedo. Foi derrotado no primeiro turno, muito por causa do fracasso de suas muitas astúcias. Entra para a história política do Rio, a caminho do seu mausoléu, à espera do Juízo Final, para ser perdoado pelos deuses da política.

Crivella, como se fosse ‘il mitte agnello’, o dócil cordeiro de fala mansa, clemente, simulando ser benévolo capaz de salvar da pobreza as crianças no interior da Bahia com recursos próprios, caiu em armadilhas quando vieram à baila denúncias. Como engenheiro da Empresa de Obras Públicas do estado, comprou com salário de servidor público um canal de TV no interior do Estado de São Paulo. Trata-se de um “predestinado escolhido por Jesus” para protagonizar o milagre da multiplicação dos pães e peixes, mas que na realidade multiplicou o número de funcionários públicos com fiéis da Universal no gabinete do Ministério da Pesca na sua gestão.
A eleição deste ano serve como referência histórica para que os eleitores do Estado do Rio, nos próximos pleitos, 2016 e 2018, não tenham que se defrontar em escolher para serem governados por políticos representantes com bandeira de cunho do ‘populismo religioso’, nem ter que assistir a debates carregados de violência política e amoral dentro dos padrões de conduta cívica para quem tem consciência da verdadeira pratica democrática.

Ao senhor governador, Pezão, cabe seguir o conselho de sua mãe, Dona Ecy, 84, com rosto enrugado com as marcas do tempo e sorriso de ‘santa da pureza’, quando fez um único pedido: “Humildade, meu ‘mitte agnello...’”

Wilson Diniz é economista e analista político 

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