Por bferreira

Rio - Queria estar falando aqui de minha experiência nas UPPs, sobre a relação da polícia com os moradores das comunidades, o aprendizado adquirido, os riscos, dificuldades e problemas do trabalho policial. Sobre a luta para sobreviver em ambientes conflagrados, mas também sobre a riqueza cultural e a multiplicidade social da favela, fragmentada num mosaico de atores em seus diversos grupos de interesse, a criatividade de seus moradores ante tamanha adversidade material. Mas um fato lamentável, na semana passada, mudou meu foco.

Quero agora refletir sobre um outro tipo de comunidade: a acadêmica. Embora essa, diferentemente da primeira, não seja definida por eufemismos que ocultam preconceitos, porque goza de significado positivo no imaginário coletivo, ela também, tal como ocorre em relação à polícia e à favela, pode ser vista de forma homogeneizada. O fato a que me refiro é o debate sobre o futuro das UPPs, que ocorreria na Uerj, após a apresentação dos resultados da pesquisa que originou o livro ‘Os Donos do Morro: Uma Avaliação Exploratória dos Impactos das UPPs no Rio de Janeiro’. O estudo foi feito por pesquisadores do Laboratório de Análise da Violência (LAV), daquela universidade. Do debate participariam, além dos pesquisadores e lideranças comunitárias, eu e o coordenador das UPPs, coronel Frederico Caldas.

Entretanto, um grupo radical de alunos da faculdade de História, numa atitude infeliz e incoerente com a imagem da universidade como espaço de diálogo e tolerância, entrou no auditório com cartazes, apitos e megafones, impedindo o evento. No meio da confusão, ainda pude ouvir quando um aluno da UFF, que já estava ali no auditório para assistir à apresentação, interpelou o grupo radical sobre os motivos daquela atitude e um deles, apontando para a foto de policiais de UPP na capa do livro, respondeu-lhe que policiais não falariam ali na universidade, ainda mais sobre um ‘livro da UPP’. Mas como pode alunos universitários impedirem o diálogo, desprezando o conteúdo daquele trabalho sério de pesquisa, que traz, dentre outros tantos dados científicos, vozes dos moradores da favela?

Ou seja, na tentativa estúpida de calar policiais, calaram também as próprias vozes que alegavam representar, além de rechaçarem a crença nos resultados da metodologia científica que, por estarem numa universidade, já deveriam ter internalizado. Se não internalizaram é porque algo deu errado. Embora a surpresa do incidente na academia, lugar da ciência e da crença na autoridade dos argumentos e não nos argumentos da autoridade, o fato é que, assim como ocorre com a polícia e com a favela, a universidade não é uma massa monolítica como se pode imaginar. Há os mais variados grupos de interesse interagindo nesses diferentes mundos sociais.

A conclusão a que chegamos com esse caso é que: nem a polícia é sempre o lugar da violência e do arbítrio, nem a favela, o do crime generalizado, nem a universidade, o do diálogo e da tolerância. A boa notícia é que há sempre, nesses diferentes espaços, pessoas de boa vontade, abertas ao diálogo, prontas para virar a página e transformar esta numa sociedade melhor, mais inclusiva, justa, tolerante e menos violenta.

Robson Guimarães é ex-chefe do Estado-Maior da PM e das UPPs

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