Por bferreira

Rio - No ringue virtual das redes sociais ainda é momento de ofensa e tempo de discriminação. As palavras do compositor Lulu Santos em ‘Assim Caminha a Humanidade’ podem ser a trilha sonora deste instante, quando ele diz: “Ainda vai levar um tempo pra fechar o que feriu por dentro, natural que seja assim, tanto pra você, quanto pra mim”.

O que não me parece natural e me surpreendeu ou estarreceu, como queiram, foi o sentimento racista, no sentido amplo da palavra que domina grande parte das discussões e das chamadas postagens. É chocante a proposta virtual de um mapa do Brasil com um muro dividindo o país em duas metades. É chocante a quantidade de vídeos e áudios que recebi cheios de xingamentos e ressentimentos contra os nordestinos e nortistas. É chocante ouvir de um jovem mesário a história de uma eleitora que diante de um mesário negro, numa urna de votação no último domingo, recusou-se a entregar a ele seu titulo de eleitor por conta da sua cor ou raça ou etnia. Confesso que, mesmo depois de tantos anos, entrevistando vítimas do racismo ou estudiosos do assunto, ainda me surpreendo com as discriminações em geral ou com os muitos racistas espalhados por aí. Sei que vai parecer ingênuo da minha parte ficar surpresa ou perplexa.

Sei que muita gente vai pensar ou dizer: como assim? Não sabia? Sabia e fico sabendo cada dia mais, agora que as redes sociais ampliam o espaço da maldade humana. Mas não consigo entender.

Na segunda feira, entrevistei dois autores que falaram sobre o perdão e a maldade. Um, o teólogo cristão Mauricio Zágari, que escreveu um livro chamado ‘Perdão Total — Um livro para quem não se perdoa e não consegue perdoar”. A outra, a psicanalista Beatriz Breves, que escreveu “A Maldade Humana, como detonar alguém no Facebook”. Zágari lembrou que muita gente acha que pedir perdão é se rebaixar, e por conta deste equívoco não perdoa o outro, nem a si mesmo, e arrasta consigo a culpa sem se reconciliar com o outro nem consigo mesmo.

A psicanalista Beatriz passou por uma desconstrução, para usar uma palavra deste tempo, sofrendo a chamada “trolagem” nas redes sociais e conta sua história usando a frequência do perdão, analisando os grupos ou pessoas que usam as redes sociais para atacar ou esvaziar o discurso alheio, na tentativa de ajudar as pessoas que, como ela, passam ou passaram por uma desmoralização ou abuso tão comum, hoje em dia, no mundo virtual. No discurso dos dois pensadores, a mesma proposta: não investir no ódio em você mesmo, nem no ódio que sente pelo outro. Vale parar para pensar. Vale combater o racismo. Vale refletir sobre a frase que escreveu para mim, comentando a coluna da semana passada, o compositor e cantor Leo Russo: “A vida é breve e não tem segundo turno”.

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