Por bferreira

Rio - Tinha eu já 15 anos de idade, quando meu pai descansou. Filho de pais portugueses, feirantes tradicionais, aprendeu que uma caneca de vinho ao amanhecer, antes de montar o tabuleiro, despertava a previsível sonolência da infância perdida. Inocente, minha avó paterna diluía açúcar e água na transformação do sangue de Cristo em suco pro almoço de domingo. E foi assim, de língua roxa, que tomei conhecimento de tal requinte alcoólico.

Com os primeiros fios de barba no Méier dos gênios João Nogueira e Helio Delmiro, fui parar no Rei do Bacalhau, da Dias da Cruz. Parênteses. Nunca compreendi o uso excessivo da monarquia em torno desse peixe salgado. Bendito império de postas! Salve o enalapril na minha pressão sanguínea! Mas o vinho dessa casa era servido numa caneca branca, alça saliente e a base larga, pintada, no detalhe, de um anel azul. Dessa vez, além da língua, o arroxeado cobria a borda grossa do copo, marcas de uma uva transgênica. Uma borra pesada escondia o fundo aonde a juventude jamais permitiria chegar, porres vermelhos aos pés da madrugada.

Tenho que agradecer. Meu trato com o idioma germânico começou graças ao Liebfraumilch, o leite da mulher amada. Acredito na responsabilidade desse meio doce pelos primeiros neurônios perdidos na minha vida. Conheci um mar de ressacas e desisti desse fermentado por um par de décadas.
Grisalho, o médico me chamou na chincha: “Moa, ou você desvia pros cabernets, ou a jiripoca vai piar”.

Tomei gosto pela história. O paladar evoluiu um pouco. Aquele garrafão de cinco litros, protegido numa rede de plástico que em último caso abastece o quentão dos arraiais suburbanos e ainda tempera o pernil dos noivos que rumam à quadrilha. Não passava na minha cabeça que nem só de Gardel e Maradonas, eu flanaria a bandeira argentina em respeito. Descobri os malbecs. No Chile, além da Copa de 62, Garrincha e Amarildo, renascia o carménère. Ao sul, tanat e mujicas uruguaios fechavam a carta com os mais próximos.

Da França, um certo receio. Um presidente nosso caiu em tentação e foi degustar um legítimo Romanée Conti. Vive hoje com a fama de ser o único brasileiro a tamanha façanha. Faltava encontrar um balcão aonde as taças dançassem feito tulipas, corajosas feito shots, e tão populares como calderetas de boca larga. Estou na Candy, Humaitá, adega do Seu Luiz, português de Ponte de Lima, a primeira vila lusitana.

O sotaque me remete à conversa solitária que minha avó travava com a rádio na hora do ‘Incrível, Fantástico, Extraordinário’. Seu Luiz desarolha um tinto do Douro, outros se aproximam e todo o ritual visual, olfativo e gustativo perde o sentido pra informalidade do anfitrião. Vale a tarde desses dias, primavera azul no céu, rubra nos lábios, carioca na safra.

E-mail: [email protected]

Você pode gostar