Por bferreira

Rio - Entrevistando Zeni, a mulher que viveu com Fernando Pamplona por mais de 60 anos, ouço a revelação maravilhosa sobre uma era de ouro da vida brasileira: “Era 1946, minha irmã, a atriz Wanda Lacerda, tinha ido excursionar com sua companhia pelo Brasil e, ao chegar ao Maranhão, ficou impressionada com a erudição e aguçada curiosidade de um menino que tinha o esquisito nome de João Trinta”... Corta, estamos no “credo em cruz, Virgem Maria, as pretas velhas se benzem, se arrepiam”: o mundo encantado dos Lençóis de São Luís, que ouve contar as mirabolantes histórias do magistral — carnavalesco — cantorias sobre um rei menino, mimado, cuja mãe, Rainha de França, possui um castelo que vai ver seus candelabros se transformarem em palmeiras tropicais na ilha da assombração.

Vivo no filme ‘Trinta’, de Paulo Machline, pela proximidade com o grande mestre, e pela beleza da ficção, que faz jus à juventude e chegada de Joãosinho ao Rio, Theatro Municipal, e sua estreia no Salgueiro em 1974, substituindo Pamplona. Belo longa metragem delirante, sobre o onírico criador dos grandes enredos que libertaram a narrativa da Escola de Samba da linearidade histórica, abrindo possibilidade de existência para a concepção estilhaçada ou completamente sonhadora de um encenador carnavalesco.

E o tiro certeiro do filme é viver dentro do cérebro de Trinta, assumir o fantasioso de seus dias, mergulhar nos barracões arrumados e belos da cabeça do artista, e estar interessado no tributo ao gênio, a partir de seu próprio redemoinho. E esta irmandade artística, que faz do filme continuidade da vida do carnavalesco revolucionário, alcança ápice na luz difusa e assombrosamente mágica da cena em que os portões do Salgueiro se abrem e revelam Isabel Valença, a deslumbrante mulher negra catapultada para a qualidade de estrela absoluta da beleza e do glamour por Pamplona e João, já fantasiada de Catarina de Médici com sua capa partida em oito pedaços segurados por oito belos acólitos negros. Uma perfeição de composição irreal, dotada de acurada visualidade e assumidamente artificial e fascinante. Um belo momento do cinema nacional em 2014, num filme que perigosamente flertava com um universo que não tem conseguido ser traduzido à altura pela sétima arte.

Batamos cabeça para o delicado Matheus Nachtergale, que vai comendo pelas beiradas até ser incorporado pelo vigor artístico de seu semelhante nordestino. Matheus pesca João pelo anzol da reverência e loucura, pelo transe que reúne negras rezadeiras, mulatas belíssimas e plumas por entre um séquito de ajudantes da folia. Viva Trinta e Pamplona, no filme sobre o arroubo das paixões carnavalescas, passional drama de triunfo e visionária determinação.

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