Por bferreira

Rio - Trata-se de uma revolução dos eletrodomésticos. Não sei como se eles se organizaram, nem quem é o líder. Ou a líder. Mas o fato é que eles se revoltaram. O primeiro foi o forno, que não gosta de ser aceso. Preciso ter muita paciência e perder alguns minutos ouvindo o seu barulhinho irritante e acionando o botão, para conseguir que ele aceite funcionar. Depois, foi a máquina de lavar. Se cansou de centrifugar e, desde o fim de semana, insiste em parar na etapa enxágue. Aperta um botão daqui, aperta outro dali, levanta a tampa, abaixa a tampa. E, depois de várias repetições desta série de procedimentos, vamos chamar assim, volta a funcionar.

Quem dera fosse só ela. Sabe a centrífuga, aquela que a gente morre de preguiça de usar só de pensar na quantidade de peças que tem que lavar depois? Ela mesma. Me preparei para tomar um belo suco verde. Cortei e lavei a couve orgânica, caríssima, a salsa, o aipo, a hortelã, raspei a cenoura, tirei as sementes da maçã, cortei em quatro e comecei a maratona da saúde. Afinal, dia sim, outro também leio ou ouço que o suco de vegetais e frutas é tudo para a saúde. E quem disse que a maldita funcionou? Engasgou no primeiro pedaço de couve enrolada na cenoura e me deixou na mão. Mas não sou mulher de desistir fácil, procurei, achei e parti para usar a segunda centrífuga e um nauseante cheiro de queimado tomou de assalto a cozinha. Juntei os legumes num saco plástico, guardei na geladeira, comi a maçã e pensei: à noite faço um saladão, o que, vamos combinar, é super-saudável.

Isto tudo ao som de fogos de artifício que a vizinha comunidade “pacificada” insiste em soltar de manhã até a madrugada, num frenesi ou numa “alegria” assustadora. Só é menos assustador que o barulho do helicóptero que escuto tão perto, mas tão perto que resolvo olhar na janela da sala para ver se algo acontece. E não é que acontece? Entre meu prédio e o prédio da frente, numa rua de largura comum, voa, na altura do 13º andar, um helicóptero verde da Polícia Militar que, sem cerimônia, transita livremente pouco acima da copa da amendoeira. Nada de pior vai acontecer, penso, para me consolar. Como o fogão ainda funciona, consigo fazer uma tapioca, e levo meus jornais do dia para a área de serviço, que dá pra mata verde, linda, com ipês amarelos, nos fundos do apartamento, portanto longe do vai e vem do helicóptero. Os fogos continuam, olho pra frente e as árvores tremem com o rasante do helicóptero que, agora, manobra ali, bem em cima delas. Vai e volta sem parar. Ao som dos intermináveis fogos e do incansável helicóptero, descubro que a borracha da porta da geladeira também precisa ser trocada. Credo! Não sei se chamo um técnico, vários deles ou só uma benzedeira. Mas o fato é que precisamos de pacificação: tanto os revoltados eletrodomésticos quanto a comunidade que mora ao lado.

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