Moacyr Luz: Derradeiro samba

Efson morreu aos pés do esquecimento. Pelo menos brilhou pra mim nas tardes do Andaraí

Por O Dia

Rio - Acordo cedo com um toque no celular. Estou em São Paulo, mas notícia ruim, você sabe... Morreu Efson, sambista de primeira, autor de “Firme e Forte” e “Hoje é dia Festa”. Abro o Google pra lembrar outros sambas, sua história, mas não encontro uma ocorrência sequer sobre o falecimento, se caiu da bicicleta, pulmão, doenças que não pronuncio, se morreu cantando ou sozinho com a mala cheia de melodias novas e um absurdo anonimato imposto pelos editais de cultura.

Castelo de cartas, fui lembrando os espadas desse naipe da batucada e que o vento da vida, na última curva, carregou. Na quadra do Renascença, onde criamos nosso bunker, cavalos tombaram feito Quixotes de uma batalha inglória que é viver de música no Brasil. Já me despedi de Cláudio Camunguelo, o maior flautista de rua do mundo. Tocava feito um artista estrangeiro, mas nas biroscas da nossa cidade, onipresente de Vista Alegre a Copacabana, da Portela à Sala Cecília Meireles. Também dei adeus pra Deni de Lima, carisma puro, alma que a madrugada roubou. Do primeiro dia de Samba do Trabalhador, a ausência sentida por Bandeira Brasil. Convicto, subiu com seus sambas sociais, e fez fila com Ratinho, repertório consagrado, de “Vai Vadiar!” a “Coração em Desalinho”, um roteiro pra cantar de pé.

A recordação por Renatinho Partideiro e suas rimas surpreendentes. O mau humor inspirando versos, palavras de desnudar qualquer repentista de pandeiro e coração mole. Hoje é nome de viaduto em Ramos, lembrado na tamarineira do Cacique, reitor eterno dessas aragens. Também ensurdece o silêncio por Luiz Carlos da Vila. Meu parceiro de samba e destilados, poeta único da minha geração. Magro feito os papéis em que ele varou noite escrevendo letras pra todos os enredos, fechou os olhos antes dos 60 anos, apressando a tristeza desses dias.

Cometas do samba, passam feito um raio, e a gente só da conta quando deixa um rastro de luz, e todos se elevam em reconhecimento. Faltou Gelcy do Cavaco com suas tiradas de malandro, registradas em “Boca sem Dente” e “Tendinha”, sambas de morro, fotografia de subúrbio, a ideia que nasce no trem até parar na estação, de rádio, nas quadras de meio de ano, esquentando os tamborins.

Efson morreu como todos dessa crônica, aos pés do esquecimento. Pelo menos brilhou pra mim nas tardes do Andaraí, bailando suas introduções de boca, rouco de tanto falar “se liga no negão”, rindo de tanto descaso, careca de tanto saber, magro de tanto correr atras do pão.

E-mail: moaluz@ig.com.br

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