Por bferreira

Rio - Ao final das eleições presidenciais este ano, surgiu um movimento de extrema direita, autodenominada anticomunista e antipetista. O filósofo Paulo Arantes trata de uma nova direita no Brasil, cujo interesse não seria mais conquistar maioria no governo, mas inviabilizá-lo. Contando com o financiamento das grandes corporações, ela abriria mão da disputa eleitoral, assumindo posições inegociáveis. Diferente da esquerda que, cada vez mais, ao ocupar o governo, seria levada a negociar e flexibilizar princípios. Mas de que direita Paulo Arantes fala?

Christian Dunker, professor e psicanalista, ao tratar deste fenômeno, parece ser mais preciso quanto à direita em questão. Segundo o professor, a direita neoconservadora, ao invés de se reposicionar após as eleições, busca a suspensão das próprias regras do jogo democrático. Dunker fala, pois, da direita que pede golpe militar e defende ‘bandeiras’ como o ‘fuzilamento’ de Dilma Roussef.

Diríamos que, após as eleições, vemos um falso tensionamento entre duas direitas. De um lado, uma direita caricata, que ignora que já tem o que quer: o fim do parlamento, que já não cumpre seu papel de representante do povo, ou seja, a intervenção para suspender o que, de fato, já está suspenso. Do outro, a direita liberal, que ignora que quer o mesmo que a direita caricata: sabe muito bem que as regras democráticas já estão suspensas e que o capital é quem decide quando e como retomá-las.

Esses dois extremos da direita, por exemplo, mobilizam o caso Petrobras para fazer uso da suspensão já vigente — a corrupção —, em nome da suspensão do resultado de uma eleição em que saiu derrotada. Mas se uma é intransigente e não abre mão de suas premissas conservadoras, a outra está sempre disposta a negociar.

Ao contrário do que costumamos imaginar, a corrupção não é a atividade de quem não tem moral alguma: a sua lógica é justamente a de elevar um valor moral à categoria de ‘inegociável’ para assim, em nome dessa suposta retidão moral, negociar tudo o mais. Deste modo, a corrupção se apresenta como prática regular desta síntese de direita que tem como método o golpe, o hábito de pôr o interesse privado acima do público e a disposição para vender tudo em nome de uma moral.

E é essa também a prática que une as duas faces da direita, como no famoso comercial da Mastercard: uma, em nome da família e dos bons costumes, diz que não tem preço, a outra, em nome do desenvolvimento do país, exibe, pronta pra negociar, o seu cartão de crédito.

Clarisse Gurgel é cientista política e professora da Unirio

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