Por bferreira

Rio - Seria audacioso questionar a publicação de ‘Alabardas, Alabardas’ de um prêmio Nobel, como José Saramago? Não seria este autor que me fascina pela sua capacidade de descrição, nos vários livros que devorei, uma vítima do que editaram post mortem?

Pois bem, esta é a questão que coloco em meus pensamentos, enquanto profundo admirador do escritor José Saramago que arrancou-me gargalhadas em ‘As intermitências da Morte’ ou o espanto no ‘Evangelho’ que escreve sobre Jesus Cristo, sobretudo no grito final, na cruz: “Homens, perdoai-O, porque Ele não sabe o que fez”!

Este escritor de infinita capacidade de esmiuçar situações, criar suspeitas, inventar quadros que, escritos por sua pena, transformam-se em pintura inigualável foi bombardeado pelas espingardas de sua última publicação. De sua última não. Ele não as publicou, portanto a culpa não é dele porque o livro estava incompleto, chegava ao terceiro capítulo, tão somente.

A curiosidade me fez comprá-lo. Como não ler o que Saramago não publicou? O que estaria escrito em ‘Alabardas, Alabardas’?

A narrativa é impecável, como sempre. Mesmo em tão pouco espaço foi capaz de prender-me. 

No entanto, poderiam ter evitado algumas incorreções que a vida não lhe deu tempo para rever. A guerra do Chaco não foi entre bolivianos e uruguaios e, sim, contra o Paraguai, página 28s. Nem haveria outra confusão entre Alpes e Andes e, muito menos, quanto à citada saída sul para favorecer a Bolívia, pág. 54.
Mas, parece-me que o pior ocorre na página 56, ao final do capítulo terceiro, quando escreve: “Assim começou por me parece também, mas é só questão de lhe dar a volta...”

Creio que das duas, uma: ou se escreve “porque me parece também” ou então: “ por me parecer também”...

Sinceramente, tenho a impressão de que para distribuir ao público esta obra inacabada poderiam os detentores dos direitos autorais evitado que José Saramago tivesse uma obra publicada sem a revisão necessária, embora preservando o conteúdo fundamental.

É por isso que considero que Alabardas, Alabardas; espingardas, espingardas, pode ser uma obra cujo tiro saiu pela culatra.

Hamilton Werneck é pedagogo, escritor e palestrante

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