Jaguar: Noca da Portela: 'O porta voz do povão'

Ele está lançando um CD depois de quase duas décadas sem gravar

Por O Dia

Rio - Desconhecido como Oswaldo Alves Pereira, mas famoso e respeitado como Noca da Portela nas rodas de samba, ele está lançando um CD depois de quase duas décadas sem gravar. O título, com licença de Nelson Rodrigues, é o obvio ululante, Samba Verdadeiro. A capa mostra um Noca 65 anos com pinta de garotão (Dona Conceição, sua esposa, estranhou: “Parece um clone”). É o retrato do artista sempre jovem (“Quando eu o conheci, há 30 anos, ele era muito mais velho”, me disse Dalmo Castelo).

Só faltou a transcrição das letras lapidares desse comuna de carteirinha, filho de um comunista histórico, do tempo em que bastava ser de esquerda para dar cadeia.

Participaram Paulinho da Viola e Paulo Cesar de Andrade. Paulinho da Viola: Saudações Cruzmaltinas. Gostaria que você falasse sobre sua vivência no Paraíso do Tuiuti.

Noca: nos conhecemos num dia em que você subiu o morro com o Mauro Bolacha à minha procura. Tinham matado um valente, e o morro estava em polvorosa. Ninguém disse onde eu morava, pensaram que vocês eram da polícia. Era no tempo da “gestapo” da ditadura, em 65. Eu era manjado como elemento de esquerda. Fui dar uma espiada e você estava tomando um “quente” na tendinha do Jorge Orelhinha. No Tuiti, ganhei oito ou nove enredos, mas gravar não gravei.

Paulinho da Viola: você acha que o samba e os sambistas estão conseguindo mais espaços na mídia?
Noca: Ela está chegando, conhecendo mais o nosso trabalho. Estamos batalhando: você, Dona Ivone Lara, Délcio Carvalho, Ney Lopes, Elton Medeiros, Luiz Carlos da Vila...

Paulo Cesar: nas composições, suas ou com parceiros, o que surge primeiro, a letra ou a música?
Noca: faço as duas coisas ao mesmo tempo. Tive parceiros especiais como foi o Mauro Bolacha e agora estou há dez anos fazendo músicas com um cara de grande talento, o Toninho Nascimento, meu compadre. Dei uma meia trava na boemia, a gente faz música todos os fins de semana. A essa altura, devemos ter umas 400 composições inéditas.

Paulo Cesar: uma só música sua rendeu direitos que lhe possibilitaram comprar sua casa.
Noca: foi “É preciso muito amor” que fiz com Tião de Miracema – a única música que ele fez na vida.
Jaguar: no duro? Não seria como aquele samba de Caymi e Jorginho Guinle, segundo Sérgio Porto, letra e música de Caymi, uísque de Jorginho.

Noca: não, ele fez uma parte. Deu muita grana, foi gravada até por Paul Mauriat. (Entrevista publicada em 1998 no jornal A Notícia (do qual eu era editor) quando foi lançado o CD Samba Verdadeiro. Continua...).

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