Karla Rondon Prado: Entender pra quê?

Queria ter aquelas certezas invejáveis de só quem tem 20 anos tem. A ignorância a favor da felicidade

Por O Dia

Rio - As mulheres costumam dizer que não trocariam a experiência dos 40 anos pelos 20 de volta. Eu mesma já concluí e disse isso. Essa conclusão é uma verdade. Quantos benefícios o conhecimento adquirido com o passar dos anos nos traz! Inquestionável. Desvendamos muitos mistérios, sabemos esperar a hora certa de agir. Pensamos mais antes de achar que somos donos da verdade. Sabemos conquistar amizades só de observar o comportamento alheio. Temos os recursos necessários para atrair o homem que desejamos. Sabemos a roupa que nos cai bem. Temos total noção do que devemos comer para ficar em forma. Dominamos o nosso trabalho. Etc, etc.

Sou muito melhor hoje do que ontem, não tenho dúvida. Mas confesso aqui. Às vezes, eu gostaria de trocar, sim. Trocar pela experiência não vivida, e por isso mesmo achar que é única. Trocar pelo amor para sempre, “o amor da vida”, sem ter noção de que ele, nessa idade, provavelmente terá fim. “Todo amor é eterno e, se acaba, não era amor”, escreveu Nelson Rodrigues. O amor não acaba. Mas ele tem começo, meio e fim. Estranho. “Fim” não designa que uma coisa acabou? Não para o amor. Aquele amor que você sentiu é eterno.

Eu amei, amei muito, tenho amor eterno por ex-namorados, amigos que se afastaram, amigos da adolescência — alguns desses os feitos aos 14 anos, reencontrados pelo Facebook. “Quem é esse?”, alguém me pergunta. “É o meu melhor amigo do colégio”, respondo. E por que achamos que esse melhor amigo de colégio é confiável até hoje, se a vida o afastou? Porque fomos amigos sinceros, ingênuos, éramos puros, sem muitas páginas escritas antes. A amizade continua. Nunca mais vi, nunca mais ouvi. Uma amizade da vida que não ficou para a vida. Mas existe.

Queria, sobre os 20 anos, ter aquelas respostas certas, mesmo que não façam o menor sentido. Aquelas certezas invejáveis de só quem tem 20 anos tem. A ignorância a favor da felicidade. Mesmo nas coisas mais bobas. “Pô, tia, entrou água no meu ouvido, não saía por nada!”, o rapazinho disse. “É mesmo? E o que você fez?”. “Fui para a sauna seca”. Riram. No diálogo, estava certo de que a sauna seca evaporou a água do ouvido. Para mim não fez sentido. Claro que a água não saiu por isso, pensei. Deve ser mito. Mas quem quer saber os mecanismos do corpo e as ações reais da sauna seca sobre a água que sumiu? Era uma certeza. As certezas que não precisam do entendimento da equação e, sim, do número final da conta. É isso e pronto. Com 20 anos, não se perde tanto tempo pensando. Das coisas rasas às mais profundas. Melhor assim.

E-mail: karlaprado@odia.com.br

Últimas de _legado_Opinião