Milton Cunha: Sorriso da Mangueira

'Vai passar fome, provações, apertos, de porta em porta, de cabaré em cabaré, mas eu sei que você vai vencer'

Por O Dia

Rio - Diante da foto, gelei. Numa pista de embarque, o rabo de um avião, penumbra da noite. Um jovem negro, em terno amarelado, olha para uma lente, que desfocará e não veremos o nítido sorriso dele. É borrão, mas o que está escrito na legenda da rede social, para nos informar o que é aquilo tudo (que desconfiamos, mas não podemos acreditar), é o que esclarece a cena. “Amigos, estou partindo para a grande chance da minha vida: a oportunidade de morar na Europa e dançar o samba em shows; torçam por mim, estou muito feliz, Sorriso da Mangueira”.

Corta. Retrocede para tempos atrás: o menino magro, retinto em negritude de último tom, a asa da graúna. Feio em traços marcantes, inesquecíveis, que o tornam mais que bonito, um arrepio de vida e potência. Com a mais larga boca do mundo, que se abre no mais largo sorriso do universo, que revela os mais brancos dentes. No escuro, só sobra olho e dente. Quando a bateria toca, em qualquer quadra, ele dança até a exaustão; sempre muito suado, quase uma cachoeira. O líquido faz seu negrume de pele brilhar, e ele passa a ser um ponto reluzente nas luzes dos ensaios. Torpor de tanta vida, da imperiosa necessidade de mostrar que nada o segurará. Talvez como seus avós nas fazendas, escravizados. Força incontrolável da natureza, sem dinheiro para a água que lhe mataria a sede depois da exibição de horas, porque não é passista de minutos. De onde vem a força? Quando se alimentou? Quantas vezes o aplaudi, congelado por estar diante da esfinge, mais que intrigante, incompreensível? Sempre me causou vertigem, pela absoluta capacidade de doação ao samba, ao Carnaval.

Corta. Volta para agora: estou na calçada do Leme, com dona Rita de Cássia da Vila Isabel, e ele guardador e lavador de carros (como Cartola, outro desta espécie) avança com sua energia sob o sol de domingo, e nos cumprimenta com a alegria de quem não vê desgraça em nada. Faço com ele a festa sobre a calçada de pedras portuguesas, rimos, nos abraçamos, e eu sem saber que aquela era a última vez desta temporada. Ao ler seu parágrafo que nos informa que ele está indo para não voltar, choro por não ter gritado: “Eu te amo, eu te reconheço, meu irmão, meu semelhante, meu artista! Vai passar fome, provações, apertos, de porta em porta, de cabaré em cabaré, mas eu sei que você vai vencer, porque existir é tua vitória. Meus aplausos, minha admiração, me dá um autógrafo”.

E o deixo partir, porque deslocar é preciso. Ficamos aqui, sozinhos, eu, as quadras, as escolas de samba, a Sapucaí, que não seremos mais iluminados por seu sorriso, menino rico. A Europa resplandecerá em teus sonhos.

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