Nelson Moreira: Marca não faz amigo

Enganam-se, como os que compram cães falsificados, os que escolhem seu animal de estimação como uma grife

Por O Dia

Rio - A notícia sobre gangues que pintam e maquiam cães vira-latas para vendê-los como ‘animais de raça’ surpreendeu e causou revolta. Não só pelo oportunismo dos bandidos na enganação aos incautos, mas também pela crueldade com os animais.

Mas me parece que o lamentável episódio nos abre espaço para uma reflexão sobre o significado da relação comercial entre os que vendem e os que compram cães. E, no caso da ‘falsificação’, fica evidente que os que buscam os cães não querem apenas uma companhia para si, para uma criança ou para um amigo. Em vez de um melhor amigo, muitos buscam uma grife, representada pelo pedigree ou a raça.

Numa sociedade em que as coisas ‘valem’ pela aparência e pela noção de status ligados a ela, em que as marcas são mais valorizadas que as qualidades dos bens, não deveria causar estranheza que os vira-latas sejam considerados animais sem valor, que devem ser relegados ao abandono das ruas ou ser camuflados para adquirir ‘valor’. E que o cãozinho de estimação, assim como um carro, um tênis ou um par de óculos, seja escolhido pela grife, definida por sua raça.

Mas, para mim, que passei a infância tendo como amigo um legítimo vira-latas, e cresci num mundo em que as relações com as pessoas e nossos animais de estimação ainda valiam mais do que com as coisas, assusta saber que o melhor amigo é escolhido pela marca. E não errei ao não escrever raça, porque o que é buscado é, como num tênis ou num carro, uma marca de status, uma distinção ou capital simbólico, como definiu o sociólogo francês Pierre Bourdier. Afinal, alguém já viu alguém passeando na rua com um vira-lata preso à coleira?

Talvez as pessoas nem se deem conta disso quando são levadas a agir ‘como todo mundo’. E se enganam — tanto quanto os que compraram vira-latas camuflados como se fossem ‘cães de raça’ —, achando que o pedigree faz alguma diferença na relação de amizade e carinho que estabelecemos com nossos animais.

E o pior é que esse tipo de ‘escolha’ pode ser visto em praticamente todas as atividades do dia a dia na nossa sociedade racional. Certos estão eles, os animais, que não se tornam melhores amigos apenas de donos ricos, bonitos ou famosos.

Nelson Moreira é jornalista do DIA

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